quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Esperando o Natal

Elaine Tavares - jornalista

Eu sempre gostei de filmes de Jesus, desde pequena. A mim encanta esse homem que partilha, que caminha pelas estradas poeirentas, que ama o próximo e o distante. O que ampara a mulher adúltera, o que come com as prostitutas e os tribunos, o que está no mundo, mas não é do mundo. Gosto da sua violência contra os vendilhões e sempre me emociono demais com a absurda fé que ele tinha nas gentes. E, no filme de Zefirelli, a cena final sempre me faz chorar. É quando ele volta da morte, e está com os apóstolos. Alguém pergunta: e agora, para onde vais? Então ele olha para a câmera e como a fitar nossos próprios olhos diz: não tenham medo, eu sempre estarei com vocês! Acho isso de uma ternura abissal.

Nestes dias que antecedem o natal eu gosto de rever estes filmes. Até mesmo o de Mel Gibson, que escancara a tortura e a dor infligida a quem decidiu questionar a lei vigente. Penso que, de algum modo, em cada um dos diferentes “Jesus” que o cinema nos apresenta, há um pouco do homem que gostaríamos de ser. Esse que é capaz da mais radical doçura, que cura o doente, que ampara a alma em escombros. É por isso que o meu natal não tem Papai Noel, esse criado pela Coca-Cola em 1931. Não. Ele é repleto da busca desse Jesus que nos olha nos olhos e diz que sempre estará conosco.

Nestas noites de dezembro, confrontada com toda a fragilidade da vida, com a dor, a impotência, a solidão existencial, eu preparo com carinho o dia deste homem. Não vou esperar a meia-noite, como fazem todos, num ato ritual. Gosto de viver o dia, o 25, como se fosse mesmo um dia de aniversário. Vou fazer pudim e tomar pureza. Vou buscar a força em mim para domar o medo e deitar na sua rede, sem buscar entre os mortos aquele que vive.

Nietzsche dizia que só os fracos precisam de deuses, como muletas. Mas até ele se rendeu a idéia de que Jesus havia sido o único cristão. Nestes dias de desamparo, sim, quero assumir as muletas. Sou uma mulher que precisa de deuses. E espero Jesus, sem presentes, sem árvores luminosas, sem peru. Só com minha louca certeza de que os deuses são nossas redes. Nada podem. Apenas balançam, nos ninam e nos sussurram a frase necessária: Não tema, eu estou aqui!

Feliz Natal!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

“Já acabou a época de acabar”: avança o valente povo Xokleng

Por Elaine Tavares

Quando Cabral chegou às águas da Bahia, na região sul de Pindorama, onde hoje é Santa Catarina viviam os Guarani, os Kaikang e os Xokleng, sendo que os primeiros vestígios de comunidades humanas nestas paragens datam de 5.500 anos. Para os Xokleng, a terra conhecida chamava-se La Klãnõ, que na sua língua quer dizer “território dos caminhantes do sol”, ou “da gente que vive sob o sol”. Eles são do tronco lingüístico Jê e, segundo estudos feitos pelo antropólogo catarinense Silvio Coelho dos Santos, no passado, viviam divididos em três grandes grupos. Um deles circulava pela região do Vale do Itajaí, outro na cabeceira do Rio Negro , na fronteira com o Paraná, e o terceiro, no sul, próximo a Tubarão. Eram nômades, caminhavam pelo território em busca de caça e pesca e não eram dados as artes agrícolas. Seu centro vivencial se dava em torno da mulher. Ela decidia onde parar, descansar suas tralhas domésticas e fazer o fogo. Ali o grupo então permanecia por alguns dias. Viviam no tempo e só construíam abrigos feitos com ramas de árvores nas épocas de chuva. Seu espaço de andanças na busca da caça cobria desde Curitiba, no Paraná, até a região de Porto Alegre. No litoral viviam os Guarani, e os Kaigang um pouco mais para dentro, no lado oeste. Com estes, os Xokleng vivam de escaramuças.

Por conta da proximidade com o mar os Guarani foram os primeiros a serem encontrados pelos brancos invasores, quando estes começaram a descer a costa. Logo passaram a ser capturados para servir de mão de obra escrava. Mas, por causa da resistência que empreenderam e também das doenças, este povo foi praticamente dizimados. Poucos restaram, fugindo para dentro do continente, outros foram escravizados. Já os Kaigang e os Xokleng só foram vistos bem mais tarde quando os paulistas iniciaram as rotas de comércio com o Rio Grande do Sul tendo os tropeiros como os desbravadores, por volta de 1728, portanto, mais de 200 anos depois da conquista. Mas, eram encontros fortuitos. No geral, quando viam os brancos ocuparem seu território, os Xokleng resistiam bravamente, passando a ser reconhecidos pela sua valentia. A região ocupada por esta etnia era o espaço das araucárias, que, para eles tinha importância fundamental. Toda a base da sua alimentação era o pinhão, e é bem provável que tal qual os Mapuche, da Argentina e Chile, também moradores de terras de aruacária, estes espaços fossem considerados sagrados.

Foi com o surgimento da cidade de Lages, em 1771, que a saga de destruição dos originários tomou mais força. Colonos vindos de São Paulo ou de outras regiões do Brasil montavam fazendas para criação de gado e cercavam as terras. Depois, com a chegada dos imigrantes europeus, no início do século XIX, outros espaços de terra lhes foram tomados, a ponto de uma carta régia de Dom João VI estabelecer o início de uma guerra de extermínio. Os conflitos eram inevitáveis. Uma triste história, pois tanto os Xokleng defendiam suas terras, quanto os imigrantes buscavam o cumprimento de uma promessa de vida melhor. Mas, neste embate, os originários eram os que levavam a pior, uma vez que sequer eram considerados “humanos”. Pejorativamente chamados de “bugres”, os Xokleng passaram a ser caçados como bichos pelos “bugreiros” que os vendiam no mercado de escravos e defendiam as terras dos imigrantes. Naqueles dias, a vida dos Xokleng, que adentravam o mato e observavam, curiosos, a horda dos brancos, entraria num redemoinho sem volta.

Os Xokleng tinham uma longa tradição guerreira, uma vez que viviam de escaramuças com os Kaigang e a presença dos brancos ia, pouco a pouco, inviabilizando a coleta de alimentos. Sem a prática da agricultura, guerrear com os invasores passou a ser vital para os grupos originários. Uma coisa levou a outra, e o governo também decidiu proteger as terras com milícias armadas. Cada vez mais os indígenas ficavam encurralados, uma vez que não tinham para onde fugir. Assim, exército regular e tropas de bugreiros iniciavam a “civilização”, como eles mesmos anunciavam nos jornais da época. E, esta, nada mais era do que o massacre sangrento de famílias inteiras dos Xokleng. Nem mulheres ou crianças eram poupadas. O índio era visto como um simples obstáculo que deveria ser transposto em nome do progresso e da vida feliz das famílias brancas. Ninguém levava em conta que aquela era uma terra que tinha dono.

A “pacificação”

No início do século XX, depois que grande parte do território dos Xokleng já estava loteado e um expressivo número de indígenas mortos, em 1914 dá-se o que ficou conhecido na história por “pacificação”. Naqueles dias, a já então República tinha o índio como um “problema nacional” e no começo do século XX Cândido Rondon havia iniciado sua cruzada de integração do indígena à vida brasileira, sempre pela paz. Em 1910 o Estado criara o Serviço de Proteção ao Índio, tendo como lema o axioma de Rondon: morrer se for preciso, matar nunca! Chegava a hora do fim do massacre pelas armas e começava uma proposta de “integração” que, apesar da boa vontade, também confinava o índio e obrigava os povos a assumir uma nova cultura, assim, de chofre, num choque cultural do qual poucos se recuperaram.

Em Santa Catarina a história oficial conta de um jovem idealista, Eduardo Hoerhan, que havia assumido o SPI e buscava um encontro com os Xokleng para acabar de vez com as escaramuças entre indígenas e colonos imigrantes. A proposta era pacificar e aldear os Xokleng para que as comunidades criadas nas terras originárias pudessem produzir e viver em paz. Dos desejos dos índios ninguém quis saber. E assim, contam os livros que depois de algum tempo de “namoro”, com conversas (Eduardo arranhava a língua dos Xokleng) e com a entrega de presentes, ele logrou atrair os indígenas e pelos menos uns 400 deles passaram a freqüentar o chamado “Posto de Atração”. Mas, apesar disso, os “bugreiros” continuaram a atuar na região, afinal, muitos grupos de indígenas ainda vagavam pelas florestas e até os anos 40 ainda se avista um ou outro resistindo ao aldeamento.

Foi no ano de 1918 que Hoerhan chegou a Ibirama com um grupo de 200 Xokleng e foi ali que se demarcou um espaço para que a comunidade passasse a viver. Naqueles dias, conta Silvio Coelho, os chamados “botocudos” eram como bichos no zoológico e de todos os cantos do estado vinha gente para vê-los, acuados e tristes, finalmente pacificados. Assim, de caminhantes sob o sol, nômades e livres, os Xokleng passaram – num átimo - a sedentários e dependentes da boa vontade governamental. Uma mudança brusca demais na cultura e no modo de ser a gerar conseqüências que perduram até hoje. Uma foto, reproduzida no livro de Silvio Coelho “Índios e Brancos no Sul do Brasil – a dramática experiência dos Xokleng”, dos primeiros anos de “pacificação”, é a prova viva do horror vivido pelas gentes Xokleng. Nela, uma mulher abraça uma menina, mas o que toca a alma são os olhos. Os da mulher expressam um profundo sentimento de tristeza e derrota e a menina olha para câmera cheia de terror. Agarradas, as duas se protegem, mas sabem que a vida nunca mais será a mesma. É o fim do seu mundo.

A voz Xokleng

Convidados pelo Grupo Livre de apoio aos Povos Indígenas de Santa Catarina e reunidos em Florianópolis, em dezembro de 2009, os 18 caciques da área Xokleng La Klãnõ, apresentaram outra versão da história, desde as suas memórias mais antigas. Conta o diretor da Escola Bugio, José Cuzung Ndilli, que a chamada “pacificação” não foi conseguida por Eduardo Hoerhan, como diz a versão oficial. “Foram nossos líderes que, em 1909, se juntaram e decidiram que não dava mais para ficar guerreando com aquela gente que chegava. Foram eles que decidiram fazer o contato com os brancos, indo na casa de Hoerhan. Foi nosso povo que decidiu pela paz. A gente confiou nos brancos e é tão rejeitado até hoje”. Naqueles dias, diz ele, dos 400 que fizeram contato, sobraram apenas 120, por conta das doenças que apareceram. “Hoje, passados 70 anos, nós somos dois mil índios e continuamos crescendo. Já acabou a época de acabar. Nós somos um povo difícil de extinguir”.

Ndilli diz que atualmente os Xokleng ainda sofrem com a perseguição e o preconceito. Isso sem falar na falta de respeito do governo para com eles, como ficou claro na construção da Barragem Norte, em José Boiteaux, nos anos 70, que alagou terra e desalojou várias famílias, diminuindo ainda mais o território. “A gente sabe que as lideranças da época aceitaram a barragem, mas como foi o processo? O branco sempre quis ser superior ai índio e não leva em conta as nossas necessidades. Ele sabe que a terra é nossa, mas tem essa ganância”. Há pouco tempo, em 1991, os Xokleng chegaram a tomar o canteiro de obras da barragem exigindo o cumprimento das promessas, que não saíram do papel. “Tem muita gente sem casa, não há um estudo de impacto ambiental da barragem e nós queremos ver. Porque se o verde da bandeira ainda está aí, intacto, é porque nós protegemos. O que é história de progresso para o branco, pra nós é sofrimento”.

O professor Ndilli insiste que os Xokleng vão seguir lutando pelos seus direitos, pelo cumprimento das leis, embora saiba que para o governo seria bom o índio não ter história nenhuma. “Eles gostariam de ter uma borracha gigante que apagasse tudo, mas não vai ser assim. Em 2014 serão os 100 anos do contato. Que vamos fazer, festa ou o quê?”

Livai Paté, que é representante dos Xokleng no Conselho de Saúde, diz que não gosta de lamentar o passado, mas que sempre é bom lembrar para que as coisas não aconteçam de novo. “Nós também queremos viver, ter nosso direito, nossas terras, educação, saúde. E há que respeitar nossa forma de viver, de praticar a medicina. Essas terras eram nossas, e agora temos de ficar confinados em lugares ruins. A terra onde estamos é uma pirambeira, as melhores foram tiradas de nós. A gente não pode aceitar”.

Vomble Paté é representante da área de Palmeira e reclama da falta de interesse por parte das pessoas brancas, com relação aos problemas indígenas. “De cada 10, dois se interessam. A gente vem aqui na universidade e não aparece estudante. Mas nós queremos dizer a nossa versão da história. Esse Eduardo (Hoerhan, o pacificador) não significa nada pra nós. Ele matou um companheiro que foi buscar nosso direito. E essa matança continua. Antes eles matavam com arma de fogo, agora matam com a caneta”.

A vida em movimento

Enoke Popó é cacique na aldeia Figueira. Ele conta que os Xokleng se dividiam em vários grupos e tinham como modo de vida a coleta e a caminhada pelo território. O pinhão era o alimento principal. Durante a época da colheita eles juntavam tudo o que dava, para poder durar até a próxima. Depois, coziam e armazenavam embaixo da terra, enrolado em folhas, o que garantia a sua perenidade. O local mais abundante era a Serra da Abelha, onde é hoje o município de Vítor Meireles. “Os mais velhos sempre sabiam onde era o melhor lugar pra acampar. A gente circulava por um território de mais de 34 mil hectares e agora estamos confinados num espaço de 14 mil. Hoje estamos aí na luta para ampliar esse território. O branco fala que a gente não precisa disso tudo. Mas essa terra é nossa. É um direito nosso e queremos manter”.

Enoke lembra que não foi fácil para o Xokleng sair da vida nômade para a sedentária, como também foi difícil aprender a arte da agricultura. E quando eles conseguem, vem o governo e tira a terra, como foi na época da construção da barragem. As melhores foram alagadas e eles tiveram de ir para as regiões de rocha. Não é sem razão que eles procurem se manter mais com o artesanato do que com o plantio de alimentos. Sem a tradição ancestral e sem terras, fica quase impossível virar agricultor. Já a coleta do pinhão também é cada vez menor porque a região está tomada pelo pinus, sendo a araucária um ente em extinção.

“A gente tem de viver dependendo do governo e este ano eles mandaram apenas uma cesta básica por família. Uma, de 26 kg de alimento. E o resto do ano? Como faz? É por isso que os jovens estão saindo, vão trabalhar de empregado nas fazendas, na cidade, e aí perdem o costume”.

Sobre a religiosidade Enoke conta que quase todo o povo Xokleng é evangélico. E Silvio Coelho mostra, no seu livro sobre os Xokleng, como esta igreja acabou sendo responsável pela retirada de muitos dos indígenas do vício do álcool que havia sido contrabandeado para as aldeias para que o branco melhor dominasse. Por outro lado, as velhas tradições, uma vez que não são mais vividas, acabam se perdendo da memória. “A gente conta para as crianças dos deuses antigos, da chuva, do trovão, do relâmpago. O povo antigo se amparava nas forças da natureza. Mas é só uma lembrança que a gente passa no dia do índio. Sobrevivem alguns rituais que a gente faz nos casamento e batismos. Alguma coisa fica. Agora, a língua não. A língua a gente preserva”.

Os Xokleng vivem na região de Ibirama, em Santa Catarina, numa terra de 14 mil quilômetros quadrados. São 18 aldeias que perfazem o território La Klãnõ, com 88 famílias e duas mil almas. Cada área tem um cacique que é eleito pelos membros da aldeia e cumpre um mandato de três anos. “É bom, porque a gente fica perto. Se o cacique não cumpre o que prometeu, o povo cobra na hora”.

Sobre os movimentos de povos originários na América Latina os Xokleng sabem muito pouco. Os brancos que convivem com eles não levam estas informações. “Só no Brasil são 250 povos, com línguas diferentes. A gente tinha de ter uma língua índia pra se comunicar, talvez aí a gente pudesse entender as outras lutas. Nós, aqui, planejamos nossa idéia na nossa língua, mas depois temos de falar em português. Isso é ruim”.

E assim segue este povo que ainda não consegue se sentir em casa, apesar de estar no seu território. Sem terra boa, sem araucária, sem pinhão, sem os direitos básicos respeitados eles fazem o que sempre fizeram: lutam. Pode ser devagar, pode ser isolado, pode ser difícil. Mas é como eles sabem fazer. O povo caminhante do sol conseguiu vencer os bugreiros, a invasão, o medo, a dor. Saíram de 120 almas em 1920 para os dois mil que são hoje. Parece pouco, mas não é. Não para uma gente que já sofreu tanto e que vive abandonada na “Europa do sul”. Mas, naquele silencioso jeito de ser, eles vão gestando o amanhã esperado. Que ninguém se engane, o valente povo Xokleng, que dominou as florestas de Santa Catarina, segue em pé, e avança!...

“Já acabou a época de acabar”: avança o valente povo Xokleng

Por elaine Tavares - jornalista

Quando Cabral chegou às águas da Bahia, na região sul de Pindorama, onde hoje é Santa Catarina viviam os Guarani, os Kaikang e os Xokleng, sendo que os primeiros vestígios de comunidades humanas nestas paragens datam de 5.500 anos. Para os Xokleng, a terra conhecida chamava-se La Klãnõ, que na sua língua quer dizer “território dos caminhantes do sol”, ou “da gente que vive sob o sol”. Eles são do tronco lingüístico Jê e, segundo estudos feitos pelo antropólogo catarinense Silvio Coelho dos Santos, no passado, viviam divididos em três grandes grupos. Um deles circulava pela região do Vale do Itajaí, outro na cabeceira do Rio Negro , na fronteira com o Paraná, e o terceiro, no sul, próximo a Tubarão. Eram nômades, caminhavam pelo território em busca de caça e pesca e não eram dados as artes agrícolas. Seu centro vivencial se dava em torno da mulher. Ela decidia onde parar, descansar suas tralhas domésticas e fazer o fogo. Ali o grupo então permanecia por alguns dias. Viviam no tempo e só construíam abrigos feitos com ramas de árvores nas épocas de chuva. Seu espaço de andanças na busca da caça cobria desde Curitiba, no Paraná, até a região de Porto Alegre. No litoral viviam os Guarani, e os Kaigang um pouco mais para dentro, no lado oeste. Com estes, os Xokleng vivam de escaramuças.

Por conta da proximidade com o mar os Guarani foram os primeiros a serem encontrados pelos brancos invasores, quando estes começaram a descer a costa. Logo passaram a ser capturados para servir de mão de obra escrava. Mas, por causa da resistência que empreenderam e também das doenças, este povo foi praticamente dizimados. Poucos restaram, fugindo para dentro do continente, outros foram escravizados. Já os Kaigang e os Xokleng só foram vistos bem mais tarde quando os paulistas iniciaram as rotas de comércio com o Rio Grande do Sul tendo os tropeiros como os desbravadores, por volta de 1728, portanto, mais de 200 anos depois da conquista. Mas, eram encontros fortuitos. No geral, quando viam os brancos ocuparem seu território, os Xokleng resistiam bravamente, passando a ser reconhecidos pela sua valentia. A região ocupada por esta etnia era o espaço das araucárias, que, para eles tinha importância fundamental. Toda a base da sua alimentação era o pinhão, e é bem provável que tal qual os Mapuche, da Argentina e Chile, também moradores de terras de aruacária, estes espaços fossem considerados sagrados.

Foi com o surgimento da cidade de Lages, em 1771, que a saga de destruição dos originários tomou mais força. Colonos vindos de São Paulo ou de outras regiões do Brasil montavam fazendas para criação de gado e cercavam as terras. Depois, com a chegada dos imigrantes europeus, no início do século XIX, outros espaços de terra lhes foram tomados, a ponto de uma carta régia de Dom João VI estabelecer o início de uma guerra de extermínio. Os conflitos eram inevitáveis. Uma triste história, pois tanto os Xokleng defendiam suas terras, quanto os imigrantes buscavam o cumprimento de uma promessa de vida melhor. Mas, neste embate, os originários eram os que levavam a pior, uma vez que sequer eram considerados “humanos”. Pejorativamente chamados de “bugres”, os Xokleng passaram a ser caçados como bichos pelos “bugreiros” que os vendiam no mercado de escravos e defendiam as terras dos imigrantes. Naqueles dias, a vida dos Xokleng, que adentravam o mato e observavam, curiosos, a horda dos brancos, entraria num redemoinho sem volta.

Os Xokleng tinham uma longa tradição guerreira, uma vez que viviam de escaramuças com os Kaigang e a presença dos brancos ia, pouco a pouco, inviabilizando a coleta de alimentos. Sem a prática da agricultura, guerrear com os invasores passou a ser vital para os grupos originários. Uma coisa levou a outra, e o governo também decidiu proteger as terras com milícias armadas. Cada vez mais os indígenas ficavam encurralados, uma vez que não tinham para onde fugir. Assim, exército regular e tropas de bugreiros iniciavam a “civilização”, como eles mesmos anunciavam nos jornais da época. E, esta, nada mais era do que o massacre sangrento de famílias inteiras dos Xokleng. Nem mulheres ou crianças eram poupadas. O índio era visto como um simples obstáculo que deveria ser transposto em nome do progresso e da vida feliz das famílias brancas. Ninguém levava em conta que aquela era uma terra que tinha dono.

A “pacificação”

No início do século XX, depois que grande parte do território dos Xokleng já estava loteado e um expressivo número de indígenas mortos, em 1914 dá-se o que ficou conhecido na história por “pacificação”. Naqueles dias, a já então República tinha o índio como um “problema nacional” e no começo do século XX Cândido Rondon havia iniciado sua cruzada de integração do indígena à vida brasileira, sempre pela paz. Em 1910 o Estado criara o Serviço de Proteção ao Índio, tendo como lema o axioma de Rondon: morrer se for preciso, matar nunca! Chegava a hora do fim do massacre pelas armas e começava uma proposta de “integração” que, apesar da boa vontade, também confinava o índio e obrigava os povos a assumir uma nova cultura, assim, de chofre, num choque cultural do qual poucos se recuperaram.

Em Santa Catarina a história oficial conta de um jovem idealista, Eduardo Hoerhan, que havia assumido o SPI e buscava um encontro com os Xokleng para acabar de vez com as escaramuças entre indígenas e colonos imigrantes. A proposta era pacificar e aldear os Xokleng para que as comunidades criadas nas terras originárias pudessem produzir e viver em paz. Dos desejos dos índios ninguém quis saber. E assim, contam os livros que depois de algum tempo de “namoro”, com conversas (Eduardo arranhava a língua dos Xokleng) e com a entrega de presentes, ele logrou atrair os indígenas e pelos menos uns 400 deles passaram a freqüentar o chamado “Posto de Atração”. Mas, apesar disso, os “bugreiros” continuaram a atuar na região, afinal, muitos grupos de indígenas ainda vagavam pelas florestas e até os anos 40 ainda se avista um ou outro resistindo ao aldeamento.

Foi no ano de 1918 que Hoerhan chegou a Ibirama com um grupo de 200 Xokleng e foi ali que se demarcou um espaço para que a comunidade passasse a viver. Naqueles dias, conta Silvio Coelho, os chamados “botocudos” eram como bichos no zoológico e de todos os cantos do estado vinha gente para vê-los, acuados e tristes, finalmente pacificados. Assim, de caminhantes sob o sol, nômades e livres, os Xokleng passaram – num átimo - a sedentários e dependentes da boa vontade governamental. Uma mudança brusca demais na cultura e no modo de ser a gerar conseqüências que perduram até hoje. Uma foto, reproduzida no livro de Silvio Coelho “Índios e Brancos no Sul do Brasil – a dramática experiência dos Xokleng”, dos primeiros anos de “pacificação”, é a prova viva do horror vivido pelas gentes Xokleng. Nela, uma mulher abraça uma menina, mas o que toca a alma são os olhos. Os da mulher expressam um profundo sentimento de tristeza e derrota e a menina olha para câmera cheia de terror. Agarradas, as duas se protegem, mas sabem que a vida nunca mais será a mesma. É o fim do seu mundo.

A voz Xokleng

Convidados pelo Grupo Livre de apoio aos Povos Indígenas de Santa Catarina e reunidos em Florianópolis, em dezembro de 2009, os 18 caciques da área Xokleng La Klãnõ, apresentaram outra versão da história, desde as suas memórias mais antigas. Conta o diretor da Escola Bugio, José Cuzung Ndilli, que a chamada “pacificação” não foi conseguida por Eduardo Hoerhan, como diz a versão oficial. “Foram nossos líderes que, em 1909, se juntaram e decidiram que não dava mais para ficar guerreando com aquela gente que chegava. Foram eles que decidiram fazer o contato com os brancos, indo na casa de Hoerhan. Foi nosso povo que decidiu pela paz. A gente confiou nos brancos e é tão rejeitado até hoje”. Naqueles dias, diz ele, dos 400 que fizeram contato, sobraram apenas 120, por conta das doenças que apareceram. “Hoje, passados 70 anos, nós somos dois mil índios e continuamos crescendo. Já acabou a época de acabar. Nós somos um povo difícil de extinguir”.

Ndilli diz que atualmente os Xokleng ainda sofrem com a perseguição e o preconceito. Isso sem falar na falta de respeito do governo para com eles, como ficou claro na construção da Barragem Norte, em José Boiteaux, nos anos 70, que alagou terra e desalojou várias famílias, diminuindo ainda mais o território. “A gente sabe que as lideranças da época aceitaram a barragem, mas como foi o processo? O branco sempre quis ser superior ai índio e não leva em conta as nossas necessidades. Ele sabe que a terra é nossa, mas tem essa ganância”. Há pouco tempo, em 1991, os Xokleng chegaram a tomar o canteiro de obras da barragem exigindo o cumprimento das promessas, que não saíram do papel. “Tem muita gente sem casa, não há um estudo de impacto ambiental da barragem e nós queremos ver. Porque se o verde da bandeira ainda está aí, intacto, é porque nós protegemos. O que é história de progresso para o branco, pra nós é sofrimento”.

O professor Ndilli insiste que os Xokleng vão seguir lutando pelos seus direitos, pelo cumprimento das leis, embora saiba que para o governo seria bom o índio não ter história nenhuma. “Eles gostariam de ter uma borracha gigante que apagasse tudo, mas não vai ser assim. Em 2014 serão os 100 anos do contato. Que vamos fazer, festa ou o quê?”

Livai Paté, que é representante dos Xokleng no Conselho de Saúde, diz que não gosta de lamentar o passado, mas que sempre é bom lembrar para que as coisas não aconteçam de novo. “Nós também queremos viver, ter nosso direito, nossas terras, educação, saúde. E há que respeitar nossa forma de viver, de praticar a medicina. Essas terras eram nossas, e agora temos de ficar confinados em lugares ruins. A terra onde estamos é uma pirambeira, as melhores foram tiradas de nós. A gente não pode aceitar”.

Vomble Paté é representante da área de Palmeira e reclama da falta de interesse por parte das pessoas brancas, com relação aos problemas indígenas. “De cada 10, dois se interessam. A gente vem aqui na universidade e não aparece estudante. Mas nós queremos dizer a nossa versão da história. Esse Eduardo (Hoerhan, o pacificador) não significa nada pra nós. Ele matou um companheiro que foi buscar nosso direito. E essa matança continua. Antes eles matavam com arma de fogo, agora matam com a caneta”.

A vida em movimento

Enoke Popó é cacique na aldeia Figueira. Ele conta que os Xokleng se dividiam em vários grupos e tinham como modo de vida a coleta e a caminhada pelo território. O pinhão era o alimento principal. Durante a época da colheita eles juntavam tudo o que dava, para poder durar até a próxima. Depois, coziam e armazenavam embaixo da terra, enrolado em folhas, o que garantia a sua perenidade. O local mais abundante era a Serra da Abelha, onde é hoje o município de Vítor Meireles. “Os mais velhos sempre sabiam onde era o melhor lugar pra acampar. A gente circulava por um território de mais de 34 mil hectares e agora estamos confinados num espaço de 14 mil. Hoje estamos aí na luta para ampliar esse território. O branco fala que a gente não precisa disso tudo. Mas essa terra é nossa. É um direito nosso e queremos manter”.

Enoke lembra que não foi fácil para o Xokleng sair da vida nômade para a sedentária, como também foi difícil aprender a arte da agricultura. E quando eles conseguem, vem o governo e tira a terra, como foi na época da construção da barragem. As melhores foram alagadas e eles tiveram de ir para as regiões de rocha. Não é sem razão que eles procurem se manter mais com o artesanato do que com o plantio de alimentos. Sem a tradição ancestral e sem terras, fica quase impossível virar agricultor. Já a coleta do pinhão também é cada vez menor porque a região está tomada pelo pinus, sendo a araucária um ente em extinção.

“A gente tem de viver dependendo do governo e este ano eles mandaram apenas uma cesta básica por família. Uma, de 26 kg de alimento. E o resto do ano? Como faz? É por isso que os jovens estão saindo, vão trabalhar de empregado nas fazendas, na cidade, e aí perdem o costume”.

Sobre a religiosidade Enoke conta que quase todo o povo Xokleng é evangélico. E Silvio Coelho mostra, no seu livro sobre os Xokleng, como esta igreja acabou sendo responsável pela retirada de muitos dos indígenas do vício do álcool que havia sido contrabandeado para as aldeias para que o branco melhor dominasse. Por outro lado, as velhas tradições, uma vez que não são mais vividas, acabam se perdendo da memória. “A gente conta para as crianças dos deuses antigos, da chuva, do trovão, do relâmpago. O povo antigo se amparava nas forças da natureza. Mas é só uma lembrança que a gente passa no dia do índio. Sobrevivem alguns rituais que a gente faz nos casamento e batismos. Alguma coisa fica. Agora, a língua não. A língua a gente preserva”.

Os Xokleng vivem na região de Ibirama, em Santa Catarina, numa terra de 14 mil quilômetros quadrados. São 18 aldeias que perfazem o território La Klãnõ, com 88 famílias e duas mil almas. Cada área tem um cacique que é eleito pelos membros da aldeia e cumpre um mandato de três anos. “É bom, porque a gente fica perto. Se o cacique não cumpre o que prometeu, o povo cobra na hora”.

Sobre os movimentos de povos originários na América Latina os Xokleng sabem muito pouco. Os brancos que convivem com eles não levam estas informações. “Só no Brasil são 250 povos, com línguas diferentes. A gente tinha de ter uma língua índia pra se comunicar, talvez aí a gente pudesse entender as outras lutas. Nós, aqui, planejamos nossa idéia na nossa língua, mas depois temos de falar em português. Isso é ruim”.

E assim segue este povo que ainda não consegue se sentir em casa, apesar de estar no seu território. Sem terra boa, sem araucária, sem pinhão, sem os direitos básicos respeitados eles fazem o que sempre fizeram: lutam. Pode ser devagar, pode ser isolado, pode ser difícil. Mas é como eles sabem fazer. O povo caminhante do sol conseguiu vencer os bugreiros, a invasão, o medo, a dor. Saíram de 120 almas em 1920 para os dois mil que são hoje. Parece pouco, mas não é. Não para uma gente que já sofreu tanto e que vive abandonada na “Europa do sul”. Mas, naquele silencioso jeito de ser, eles vão gestando o amanhã esperado. Que ninguém se engane, o valente povo Xokleng, que dominou as florestas de Santa Catarina, segue em pé, e avança!...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Barca dos Livros é educação

O belissímo projeto Barca do Livros, que é levado na Lagoa da Conceição, com leituras de textos numa barca, pela lagoa afora, contação de histórias, debates, shows e musicas vem há um tempo enfrentando problemas para se manter. O trabalho vai sendo feito no amor, por um pequeno grupo de pessoas que insiste em oferecer à comunidade a cultura que é negada pelo estado. Pois agora o projeto foi vítima de declarações do Secretário de Educação de Florianópolis, no Jornal da Lagoa, que insiste em dizer que cultura não é educação e que por isso a sua secretaria não pode fazer nada para manter o trabalho. Talma Piacentini, que inclusive já foi secretária de educação da cidade, no governo de Edson Andrino, protestou:
Veja o vídeo:
http://eteia.blogspot.com





sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Lançamento da Pobres & Nojentas n. 20

Convidamos você para o lançamento da revista Pobres & Nojentas n. 20, que será no dia 17 de dezembro, quinta-feira, a partir das 19 horas, na sede do Sinergia - Sindicato dos Eletricitários (Rua Lacerda Coutinho, 149. Centro - Florianópolis - Fone : (48) 3879-3011). Será cobrado R$ 5,00 no dia, mas confirme presença pelo e-mail revistapobresenojentas@gmail.com

Programação:
- Mostra do Vídeo Bleu et Rouge
- Lançamento da revista n. 20
- Coquetel - pão, patês e suco

Trailer Bleu et Rouge:

Sinopse:
Bleu et Rouge (azul e vermelho em francês: as cores da bandeira do Haiti) é um documentário sobre a cultura haitiana na comunidade Toberck, a 120 quilômetros da capital Porto Príncipe, do conflito e da presença militar brasileira. Tini, Bel, Cassandre, Daniel, John, Jhony, Lorry, Sephorah e Taïsha, com câmera e microfone na mão, entrevistam músicos, vuduístas, cozinheiros e jornalistas para mostrar às crianças brasileiras quem são. Ao exibir esses personagens culturais, os adolescentes se deparam com novas informações e com a hibridização de culturas de sua geração.

Direção e produção: Juliana Sakae
Orientação: Aglair Bernardo

Equipe:
Fotografia: Maurício Tussi
Assistência de Produção: Maria Fernanda Sakae
Produção (Haiti): Pierre Jentil
Trilha sonora: Dominique Messeroux
Identidade Visual: André Bathke Humeres (TCC em Design)
Pesquisa de Imagem: Pedro Santos
Legendagem: Murilo Bonfim

Idioma: Francês e Créole haitiano | Legenda: Português brasileiro | 2009 40’ documentário

Um mundo maravilhoso

Por Elaine Tavares


Patética cena. Na platéia, de mãos dadas, a realeza. Olhos sorridentes, expressão de gozo e aquela serenidade dos saciados. No púlpito, o arrogante soberano do mundo. Recebia o Nobel da Paz e falava da necessidade da guerra . Nada poderia parecer mais cínico. Justificando a postura imperial dos Estados Unidos, Barak Obama insistia na sagrada missão que este país tem de levar a democracia ao mundo, nem que seja sob o fogo grosso. A imposição da “liberdade liberal” a todo custo, com canhões e bombas.

Grotesca cena, assistida por milhões de pessoas no mundo. Os reis, feito cortesãos, aplaudindo o imperador. E este anunciava a decisão de enviar mais tropas ao Afeganistão, mais mortes, mais destruição, mais dizimação da cultura, da vida. E os lambe-botas, assentindo, extasiados, vendo o dono do mundo, no seu terno vistoso, cuspindo balas. “A guerra é fundamental para preservar a paz...” Que o digam os estadunidenses empobrecidos, os que perderam as casas na crise imobiliária, os que ficaram sem emprego por conta da quebradeira de empresas privadas “competitivas”, os que tiveram de ver seu governo investindo um trilhão de dólares para salvar os bancos, enquanto eles mesmos tem de viver em tendas, sem saúde adequada, sem esperança. Que o digam as gentes dos EUA que observam o Nobel da paz gastar dez bilhões de dólares ao ano com a guerra no Iraque, os que vem seus filhos chegar em caixões.

A guerra dos Estados Unidos não é uma missão confiada por deus para levar boa vida às gentes. A guerra é uma imposição do capital que precisa se expandir. Quando a produção é demais e não há quem compre, é necessário criar alguma destruição para que as empresas possam ter a quem vender. Assim, destruir um país parece ser um bom negócio. Não tem nada a ver com democracia, liberdade e outros destes conceitos bonitos que os cínicos usam para enganar os incautos. O capital lambe os beiços e vai se sustentando mais um pouco, construindo países que foram arrasados pelas bombas.

A teologia que move a sede de poder dos Estados Unidos não nasceu agora, não é exclusividade do jovem imperador. Ela vem de longe na história, e nós, na América Latina, já a sentimos na pele desde quando este país decidiu roubar as terras mexicanas no início do século XIX. Desde lá, as doutrinas de guerra vem assolando nossas vidas, com invasões armadas, invenção de governos ditatoriais fantoches, invasões culturais, invasões empresariais. Tudo isso em nome do “deus” dinheiro, tudo em nome do poder.

Ontem, na entrega do cínico Nobel da Paz, o jovem imperador escrachou a doutrina. Sem pejo. “Não há paz sem a guerra!” E os poderosos – defendeu com seu nariz empinado - tem o direito de impor sua vontade ao mundo. Porque tem os canhões. Michele, vestida como uma imperatriz, deu o toque familiar, limpando tal qual uma dona de casa típica, o fato do marido sob os holofotes. A Globo terminou aí sua matéria, com um riso de admiração no rosto de Bonner e Fátima, eles próprios um casal modelo. E, nas casas, as gentes sorriram. “Quão lindo é esse homem, e quê coragem em defender a guerra!” Enquanto isso, lá longe, no Oriente Médio, as bombas seguem caindo, assim como no Afeganistão, em Honduras, na Colômbia. Mas tudo bem, são só luzes. E é natal...

A razão cínica domina o mundo. Já não há disfarces. Mas eu acredito que uma hora dessas, as gentes acordarão e, decididas, dirão: Já basta! Ou isso, ou a barbárie.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Nesta quinta tem ato em Florianópolis

Compreendendo que não é hora de silêncio e de passividade e sim, de unirmos forças e lutarmos pela democracia e direitos sociais, assumindo a consigna "Somos todos Sem Terra", as entidades, movimentos sociais, sindicatos e centrais sindicais se reúnem em mais um ato contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais, em defesa do MST. Essa atividade acontece em nível nacional no dia 10 de dezembro, dia Internacional dos direitos humanos. Aqui em Florianópolis estaremos realizando no dia 10 as 17h, na esquina democrática. Aproveitaremos este momento para colher assinaturas da campanha "O petróleo tem que ser nosso".
Será um dia de conversarmos com a população no sentido de denunciar os crimes do Capital Contra a Hunanidade e a Natureza.
É importante a presença de todos nesse dia de luta em favor da classe trabalhadora.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Prates: Tu És um Verme, e o Jornalista que Não te Denuncie, Um Omisso

Dedicado aos que deram a vida pela Liberdade.

Por Raul Fitipaldi

Escrevo sem constrangimento nem surpresa. Escrevo para que os estudantes de jornalismo em particular, de qualquer parte, tenham em claro a diferença entre Liberdade de Empresa e Liberdade de Imprensa. Escrevo não para desabafar, porque o “verme de defunto” que proferiu o vídeo que muitos de vocês já conheceram, que outros conhecerão e que reproduziremos no Desacato, como já o foi reproduzido no site de Celso Martins e em tantos outros espaços decentes, não pode ser levado a sério. Escrevo essencialmente, porque não pode ser exibido esse objeto repugnante do sistema na hora na qual as famílias, as crianças, os adolescentes, se alimentam, para dar continuidade à labuta diária. Estou falando de censurar ao tal Luiz Carlos Prates? Não, estou falando de censurar a quem nos conduz à insanidade mental, à mentira, ao oportunismo, à promiscuidade, à prostituição e à obscenidade. E esse ser que vomitou esses trejeitos sonoros na RBS TV induziu na sua louca paródia a tais condutas.

Quero me dirigir aos colegas que iniciam a trilha desta linda atividade de informar, comunicar, transmitir, narrar, articular opiniões, isso tudo através de uma técnica adequada, para que contemplem os valores sociais mais solidários, civilizados, progressistas, julgando à violência privada, estatal e paraestatal, servindo ao povo, educando e trabalhando para a liberdade plena do povo a partir da ética e da honestidade. Para que observem especialmente o preço que se paga muitas vezes pela fama, pela vaidade de “se achar”, pela inquietude de ser o centro das atenções, pela tranqüilidade de um salário bom e uma aposentadoria polpuda em troca do favor ao amo. Que efêmera é a mentira e que poucas décadas dura oculta a triste verdade de um senhor que engana na TV e na rádio e que fica, pela sua própria boca e imagem deflagrado em toda sua dimensão: UM JORNALISTA TARIFADO, UM BONECO DE VENTRÍLOQUO.

Esse é o pecado do colega que defende em troca de imagem, fama e dinheiro a LIBERDADE DE EMPRESA contra a LIBERDADE DE IMPRENSA. Ou se empresta para qualquer faxina ou perde o emprego. A Liberdade de Empresa motivou uma campanha brutal contra a democracia venezuelana, baseada na mentira e criando a percepção de que a não renovação de concessões de ar para determinados meios em favor dos meios públicos e populares era um ato ditatorial, a mesma campanha que estão iniciando no Equador. A Liberdade de Imprensa permite que em lugar de se modelar a opinião do povo se lhe permita a ele próprio, em seu interesse e linguagem expressar e ouvir aquilo que lhe concerne como produtor da riqueza. Falamos da luta de classes na comunicação. Esse tal Prates defende à classe social à qual serve de forma ordinária e despótica. Dono da verdade única pousa de Zaratustra mediático e entra nos lares com impudica permissividade. O que há de ser cerceado no senhor esse não é que diga o que pensa, mas sim, a deformação da verdade proposital em defesa do interesse único do seu patrão e próprio, e as formas que utiliza para atacar contra a consciência coletiva, pretendendo, através da mentira, deformar o imaginário popular para que favoreça a violência, a tortura, a perseguição e a submissão dos direitos humanos.

Quando não há monopólios há soma de mensagens expressadas, gera no coletivo social a “grande verdade de todos”, aquela que por ser o conjunto da diversidade de opiniões, visões da notícia, confrontações de fatos, acumulações de experiências e culturas que a emitem e receptam, é assimilada pelo povo como própria e não do dono do meio. A Soberania Comunicacional dos Povos inibe a existência de meios e personagens autoritários como o personagem nefasto em questão.

Finalmente, não sejamos ingênuos: o discurso deste funcionário do monopólio RBS apenas segue a linha do que começou a se desenvolver revestido de “democracia conservadora ofendida” na Venezuela, e de Golpe de Estado em Honduras. A beatificação do Golpe de Estado do nosso povo irmão de Honduras não é um acaso avulso do Império e das oligarquias regionais, é um Projeto Condor II para América Latina. Os Oscar Arias, José Miguel Insulza, Uribes, Martinellis, Alan García, Cisneros, Vargas Llosa, etc. começam a tocar os sinos da guerra. Este pobre homem da RBS é uma cópia grosseira e provinciana desse projeto que voltou a se instalar na região. Mais um beato da Ditadura. Um detalhe apenas: Não é de duvidar que ele fosse um jovem jornalista que pudesse andar solto e feliz por Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. De fato, o brotinho já era golpista, fazia parte dos acólitos do golpismo. Ou mesmo não poderia dizer Vladimir Herzog.

Em fim, aguardo com humildade, que em homenagem à memória de Adolfo Dias e a tantas vítimas em graus diversos que esta terra já teve desde a Ilha até o Contestado, meus caros e respeitados Lelê de Souza, Hamilton, Geraldo Barbosa, e especialmente o Sindicato de Jornalistas inicie ações legais e públicas com a finalidade de que nossas crianças e adolescentes, não mais sejam submetidos a esse assédio comunicacional na sala dos seus lares. Prates tu és um verme, vá para Miami, esse é o teu lugar.

JUSTIÇA JÁ!

http://sambaquinarede2.blogspot.com/2009/11/o-trombeta-da-ditadura-insanidade-no.html

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Movimento Saneamento Alternativo

Movimento que luta contra o emissário, proposta da Casan para o esgoto da ilha, fez protesto no Campeche. A luta é por um tratamento alternativo. Nenhum emissário em nenhum lugar!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Povo Xokleng diz a sua palavra

Reunidos em Florianópolis durante dois dias, 18 caciques das áreas Xokleng de Ibirama e José Boiteaux, falaram sobre sua história e discutiram seus problemas. Ninguém da grande imprensa compareceu. "A imprensa distorce tudo o que a gente diz e o povo branco não consegue nos enteder", denunciaram as lideranças. Mas, nós, da Pobres, lá estávamos e por aqui difundimos a voz originária.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Grandes Projetos de Energia só dão lucro para alguns

Elaine Tavares, jornalista

A água desceu do céu na cabeça daqueles que se recusam a vê-la encharcando campos produtivos. Dois dias de chuva forte e dois dias de intensos debates, justamente para discutir os destinos das águas e da energia neste país. Foi o Seminário Sobre Grandes Projetos de Energia, promovido pelo Movimento dos Atingidos por Barragens, na cidade de Cerro Negro, em Santa Catarina, lugar onde há mais de 20 anos se luta contra a construção de mais uma hidrelétrica no rio que corta o município. Mais de 400 pessoas participaram, dormindo em acampamentos mal arranjados e enfrentando os temporais. Isso é pouco, diziam, perto do que pode significar em destruição, a sanha construtora de barragens neste país. Daí o fato de ninguém se importar com as intempéries. Discutir o modelo de desenvolvimento lhes parecia mais importante do que clamar contra a chuva e as dificuldades passageiras.

O que são as barragens

Barragens são barreiras artificiais, feitas em cursos de rio para reter grandes quantidades de água. O propósito disso é redirecionar os mananciais, como em casos de enchentes, usar essa água para abastecer algum lugar, ou gerar energia. O uso desse tipo de modificação na natureza não é coisa nova, desde que o homem começou a manipular a natureza elas foram erguidas, principalmente onde havia escassez de água, para que durante as chuvas, o precioso líquido pudesse ser armazenado. Os árabes foram grande manipuladores das águas e as barragens mais antigas foram criadas na região do Oriente Médio e no Egito. Também na Índia antiga já se tem notícias deste tipo de ação para evitar alagamentos dos campos férteis nos períodos de cheia. Em Abya Yala (América Latina) igualmente os maias e os incas usavam esse recurso para armazenar água. Mas, é no período da Revolução Industrial – quando começa a se instalar o sistema capitalista - que este tipo de manipulação da natureza acontece para gerar energia em grande escala, e desde aí o processo avança para a construção de grandes hidrelétricas.

No Brasil

A febre das grandes barragens no Brasil começou nos anos 70, não por acaso, na década do milagre, em pleno regime militar, quando o desenvolvimentismo era a orientação nacional. A idéia era construir usinas hidrelétricas para, com a força das águas, gerar eletricidade para abastecer o parque industrial nacional que começava a se desenvolver. A primeira destas grandes barragens foi paradigmática, desalojando de uma só vez mais de 70 mil pessoas. Era a Barragem de Sobradinho, na Bahia, construída no curso do Rio São Francisco.

Em 1975, a novela da rede Globo, Fogo sobre Terra, escrita por Janete Clair, uma das mais importantes escritoras deste tipo de folhetim, debateu o tema das barragens apontando a construção como a arrancada para o progresso, afinal, nunca se deve esquecer, a empresa dos Marinho nasceu no período militar com o propósito de criar mais-valia ideológica em nível nacional. O enredo mostrava a disputa entre o atraso (quem defendia a cidade) e o progresso (a construção da barragem). Na trama, uma mulher insiste em ficar na terra e a cena em que o lago cresce e alaga tudo é de arrepiar. Apesar da carga dramática do momento, a índia Nara (vivida por Neusa Amaral), a mulher que morre em silencioso protesto é apontada como “a louca”, a que se negou a entrar no tempo do progresso. Já o mocinho, Pedro, que também iria ficar e morrer, é convencido a sair porque sua mulher espera um filho. É a vitória da “racionalidade” e do progresso.

Difícil foi para os brasileiros que sorviam o folhetim com paixão, desvincular a decisão do mocinho de suas próprias vidas. Se ele, que era o mais radical contra a barragem havia capitulado, porque não o resto do Brasil? E foi assim que, com o empurrão ideológico da Globo, a barragem de Sobradinho, em 1977, dois anos depois do fim da novela, criou um lago artificial de 4.214Km2, com capacidade para 37,5 bilhões de metros cúbicos, enterrando quatro cidades: Casa Nova, Sento Sé, Remanso e Pilão Arcado, além de outras dezenas de vilarejos. Sobradinho tem 11 hidrelétricas gerando 13 mil megawatts. Sá e Guarabira cantaram essa destruição na clássica “Sobradinho”, onde dizem: “o sertão vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão...”

Itaipu

No ano seguinte ao alagamento de Sobradinho começa a construção da Usina de Itaipu, no Rio Paraná, e é anunciada a construção das usinas de Machadinho e Ita, no rio Uruguai. Tudo apontava para um vertiginoso crescimento econômico no Brasil e as empresas estrangeiras de construção faziam fila para abocanhar o filé. Itaipu foi o mega projeto dos militares, levantada em parceria com Paraguai, e que tem a maior capacidade de geração de energia do mundo. Instalada bem na fronteira com o Paraguai ela fornece 90% da energia usada por aquele país e 19% da que é consumida no Brasil. Mas, como o Paraguai usa bem menos do que é o seu direito no acordo, o Brasil compra o que sobra e o fazia por um preço bem abaixo do mercado, pelo menos até agora, quando o presidente Fernando Lugo decidiu virar o jogo e o governo Lula teve de re-negociar, passando a pagar o preço justo.

Itaipu, tal qual Sobradinho, levou mais de uma década para ficar pronta. Cerca de 40 mil pessoas trabalharam ali, e para sua construção foram usados doze milhões de metros cúbicos de concreto (o que equivale a fazer 250 estádios do Maracanã) e outro tanto de ferro com o qual poderiam construir 380 torres como a famosa torre Eiffel, de Paris. Mas, o “crime perfeito”, como chamou o cantador popular mineiro Luiz Café, foi a destruição das Sete Quedas. Quando as eclusas da barragem foram fechadas, uma área de 1.500 quilômetros de terras produtivas e florestas foi inundada, levando de roldão as quedas que eram uma das mais belas formações naturais do planeta. “Vejo as águas correndo, os bichos morrendo, seus gritos de angustia e de dor. Vejo um lago sem leito, um crime perfeito, sem fé, sentimento ou amor”, lamentou Luis Café, numa canção que embalou o protesto das vidas da juventude sertaneja, no norte de Minas, naquele início dos anos 80. Hoje, a usina segue produzindo energia, e produzindo demais, como ficou comprovado no último apagão, provocado por excesso de geração.

As gentes

Mas, enquanto o Brasil ia “pra frente” nos anos do “milagre”, matando gente crítica nos porões, industrializando o país e modernizando a geração de energia, as gentes que viviam nas regiões atingidas pelas barragens passaram a viver seus dias de terror e abandono. Mais de um milhão de seres humanos perderam suas casas, terras e até as suas memórias. Grande parte das pessoas, como é comum no Brasil, não tinham posse das terras ou viviam de aluguel e, por isso, não tiveram qualquer apoio do governo. Apenas quem tem a escritura que prova a posse da terra ou da casa é quem recebe um imóvel quando desalojado para outros lugares. A solução, na maioria dos casos foi a migração para cidades próximas ou distantes, mas sempre na condição de um desterrado, sem qualquer possibilidade de melhora de vida. É aí que nasce o Movimento dos Atingidos por Barragens, para organizar essa gente toda. Segundo dados do MAB, mais de 70% das famílias atingidas seguem abandonadas pelo poder público. É bom lembrar que o governo não tem um órgão oficial para cuidar dos problemas dos desalojados, quem resolve isso é a própria empresa responsável pela construção das barragens. Agora, alguém aí acredita que uma empresa multinacional, dirigida desde o estrangeiro, possa se importar com a vida das gentes daqui? A resposta é um sonoro não!

Cada lugar onde foi fincada uma grande barragem, hoje são mais de 600 no Brasil (duas mil se consideramos as barragens menores), deixou um rastro de destruição, seja ambiental ou humana. Daí a luta, que começou primeiro pela garantia das indenizações justas e pelo reassentamento. Mas, depois, com a compreensão do que significam as barragens e o conseqüente não barateamento da energia, o movimento passou a lutar contra o modelo energético como um todo. Essa articulação começou em 1989, no Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragens, no qual foi feito um levantamento global das lutas e experiências dos atingidos em todo o país. Dois anos depois, em 1991, eles fazem o I Congresso dos Atingidos de todo o Brasil, quando se decide que o MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens - deve ser um movimento nacional, popular e autônomo, e que deve organizar e articular as ações contra as barragens a partir das realidades locais. Desde então, a cada três anos, o MAB realiza congresso e redefine suas metas.

No ano de 1997, foi realizado o 1º Encontro Internacional dos Povos Atingidos por Barragens, com a participação de mais de 20 países, porque afinal, essa lógica desenvolvimentista - típica do sistema capitalista periférico - e de construções de grandes usinas existe em toda a América Latina, além da Ásia, África e Europa. Desde então, o movimento vem realizando debates e lutas em todo o país, buscando construir um projeto popular de modelo energético, que fuja desta proposta predadora.

O Brasil é uma das nações do mundo que mais tem construído barragens, e tem alta dependência da hidroeletricidade, uma vez que 80% da energia elétrica vem destas represas. O que move esta loucura de construção de barragens é, obviamente, o interesse econômico de grandes empresas, muitas delas visceralmente ligadas a governos por “doações” milionárias as suas campanhas. Segundo membros do MAB, vários destes novos empreendimentos que hoje estão sendo erguidos no Brasil já mostraram problemas de legalidade, como é o caso da usina de Barra Grande, no Rio Pelotas, cujos estudos de impacto foram fraudulentos, uma vez que não informaram a inundação de florestas primárias. Também a hidrelétrica Estreito, no rio Tocantins chegou ao absurdo de divulgar que a inundação "ajudaria" os botos da região ameaçados, pois teriam sua mobilidade restringida e o manejo facilitado.

Apesar de todos os protestos, documentos comprobatórios das irregularidades e mobilizações, o governo brasileiro segue comprometido com essa via de desenvolvimento, ignorando olimpicamente as alternativas propostas por pesquisadores, estudiosos e população. Faz ouvidos moucos para problemas como a perda de terras produtivas, expulsões e deslocamentos de milhares de pessoas, destruições de espécies animais e vegetais, alteração dos regimes hídricos, rebaixamento dos lençóis freáticos, alterações geográficas, mutações dos ecossistemas, entre outros. Surdo aos clamores das gentes, o governo ainda faz estudos para a construção de novas barragens até 2030, afinal, ainda há muitos abutres estrangeiros querendo meter a mão nos grandes rios brasileiros e, neste setor, o que importa são os ganhos de produção e não a vida das pessoas ou a natureza.

Ao construírem uma barragem ou hidrelétrica para abastecimento de água, as multinacionais dominam o lago e recebem a concessão por 30 anos, com renovação para mais 30, isso sem contar o que ganham com a geração e distribuição de energia. Esta, no Brasil, é bastante nova, deve ter uns cem anos apenas. Segundo o MAB, até 1970 quando houve uma crise energética, o Brasil tinha 7.000 megawatts de energia instalada, hoje são mais de 90.000 megawatts. Isso significa que esta expansão foi coisa pensada. Com medo de ficarem sem energia, os países do capitalismo central transferiram para o chamado terceiro mundo as indústrias eletro-intensivas, que consumiam muita luz, como a do alumínio, por exemplo, que, para produzir uma tonelada do produto, gasta o que usa uma família durante nove anos. E, não bastasse isso, comeram o dinheiro público, apresentando-se para a construção das usinas, cuja verba vem dos empréstimos tomados do Banco Mundial. Plano perfeito: o governo se endivida, o povo paga a conta e os empresários enchem as burras.

Outra forma de lucrarem com o Brasil são os contratos firmados para a compra de energia. Uma empresa estadunidense, a Alcoa, paga apenas 12 dólares, em contrato que vale por 20 anos, quando o custo da produção é de 20 dólares. Ou seja, na prática o governo está subsidiando a vida destes empresários em mais de 5 bilhões de dólares, enquanto o povo paga a taxa de luz mais alta do mundo, conforme denuncia o MAB. Além da Alcoa, também se beneficiam nesta festa de dinheiro público a General Eletric (EUA), a Tractebel (França/Bélgica) e a Votorantin (Brasil). Então, o que fica claro é que sempre que se ouve o discurso de que a construção de barragens vai trazer o progresso, é bom que as pessoas tenham bem claro para quem. Certamente não tem sido para o povo brasileiro, uma vez que o nosso país é campeão mundial em desigualdade social.

Talvez por isso que estas empresas invistam tanto nas promessas de vida melhor quando visitam as famílias que serão atingidas. Elas criam ONGs que ajudam os empobrecidos, financiam rádios para repassar suas mentiras, constroem igrejas, fóruns, carros de polícia, instalam armazéns com coisas nunca vistas, visitam cada família e a enchem de falsas promessas. Tudo isso para dividir o movimento de resistência.

O seminário em Santa Catarina

Agora mesmo existe uma proposta de construir uma hidrelétrica na Amazônia, é a Belo Monte, para onde deve escorrer mais uma quantidade fantástica de dinheiro público, possivelmente captado em bancos internacionais, gerando novas dívidas para o povo pagar. E quem seriam os beneficiados com a energia gerada lá, a custa da destruição da floresta, dos bichos e de mais gente desterrada? O povo? Não! Conforme dados divulgados pelo MAB são a Companhia Vale do Rio Doce, que agora é do Citicorp, dos EUA, o B. H. Billington, da Inglaterra, grande produtora de alumínio, e a Votorantim.

Fora essa gigante de Belo Monte ainda existem outros tantos projetos de médio porte em vários outros rios do Brasil. Tudo em nome do “desenvolvimento e progresso”, o que, na prática, significa desenvolvimento e progresso apenas para os grandes capitalistas. Por conta de todos esses elementos, os participantes do seminário de Cerro Negro chegaram à seguinte conclusão: a promessa de desenvolvimento para as gentes não se cumpre. Até porque, durante o encontro, faltou energia três vezes, e eles estavam cercados por barragens. “Vê, não garante o serviço”, afirma Marinho, dirigente do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis. Outro dado importante levantado pelos participantes é quanto ao retorno que estas barragens dão aos municípios. Segundo dados do próprio município de Cerro Negro, eles ganham de royalties por conta da barragem apenas um milhão de reais, enquanto que a agricultura familiar rende aos cofres públicos mais de 10 milhões. Onde está a vantagem, então? A Usina de Paiquerê, no Rio Canoas, destruiu 180 mil pés de araucária, árvore nobre, mãe do pinhão, e em extinção. Como isso pode ser possível?

Outro ponto que deve ser levado para novas discussões diz respeito ao “S” do BNDS (Banco Nacional de Desenvolvimento Social). Este banco, que financia as transnacionais com o dinheiro do trabalhador, através do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), jamais se preocupou com o social, mas tem isso incorporado ao nome. Então, o povo vai atrás do “S”.

Outra mentira das empresas é de que as barragens geram emprego e renda. Hum...pra quem? A Alcoa tem 22 trabalhadores, com apenas seis atuando na usina. Toda a renda da empresa vai para o exterior. Já a Tractebel enviou no último ano quase dois bilhões para fora do país. O lucro é de quem? Na verdade, o modelo de desenvolvimento proposto para os países periféricos é o de geração de riqueza para os países centrais, exatamente como na época da conquista. É da natureza do sistema capitalista este tipo de modelo. Para que o centro siga rico, é necessário que a periferia se mantenha subdesenvolvida, com algumas ilhas de desenvolvimento aos moldes do sistema, apenas para manter azeitada a máquina. É o desenvolvimento do subdesenvolvimento, como já mostrou Günder Frank.

A pergunta que fica é: mas então esse povo é conta a geração de energia? Não, não é. Mas existem outras formas de gerá-la e eles tem as propostas, os pesquisadores, os técnicos. Tudo está aí. Só que não interessa ao centro que a periferia se independentize, coisa que a elite lacaia de cada país se ocupa em garantir. Que o diga Bautista Vidal, cientista brasileiro que vive gritando seus projetos sobre a biomassa, energia limpa e inesgotável gerada pelo sol, rios e matas, sem ser levado em conta pelos governantes.

E outra. Esse povo é contra o desenvolvimento? Sim, se for o desenvolvimento capitalista predador que suga tudo para os países centrais. A proposta que saiu do seminário é a da luta por outro jeito de organizar a vida que envolva não só a energia, mas tudo. Coisa difícil, é certo. Mas não impossível. Experiências de desenvolvimento endógeno, aliadas a políticas de estado voltadas para a maioria da população, com participação direta e respeito pelo saber popular, podem ocasionar aquilo que Samir Amin chama de “desconexão”, que seria a construção efetiva de outro modelo de sustentação da vida fora do sistema capitalista. Nunca é demais lembrar que este sistema que hoje é hegemônico no mundo não existiu desde sempre. Ele tem pouco mais de 300 anos e já mostra o quanto seu poder de destruição é alto. Quem consegue ter uma visão totalizante do mundo vê que mudar o modelo de organização da vida já deixou de ser uma proposta que se expressa só no campo da política. O que está em jogo é a vida humana mesma. As mudanças climáticas, a camada de ozônio, o degelo e o aumento dos oceanos, frutos da predação capitalista, apontam para uma só direção, parafraseando Simón Rodríguez, o grande mestre de Bolívar: “Ou inventamos, ou estamos perdidos”.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Povo Xokleng diz sua palavra

Dois dias de intensos debates sobre a vida, a história, a cultura , a saúde, a educação, o direito à terra e os desafios do povo Xokleng. É o que acontece nesta quarta e quinta, dias 3 e 4 de dezembro, no Auditório José de Assis Filho, no Sintufsc, no Córrego Grande, na Capital.
LA KLÃNÕ
- Os Caminhantes do Sol está sendo promovido pelo Grupo Livre de Apoio aos Povos Indígenas de Santa Catarina, e pretende ser um espaço para a palavra indígena, permitindo um amplo diálogo sobre a cultura Xokleng. Além disso, busca valorizar a memória desta nacionalidade colocando em destaque os contos e narrativas dos anciãos, caciques de aldeias e convidados.
Não bastasse isso, as lutas também estarão em destaque, uma vez que em Santa Catarina ainda há muito que avançar no que diz respeito a visibilidade da cultura e ao respeitos aos direitos dos povos indígenas.
O encontro começa no dia 3, quinta-feira, às 8h30min, com o debate sobre a medicina tradicional Xokleng. Na parte da tarde, às 13h30min, acontece o debate sobre os direitos indígenas e os problemas da terra Xokleng.
No dia 4, sexta-feira, a partir das 8h30min, os mais antigos contarão suas histórias e durante a tarde é a vez do debate sobre educação.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Blog de colega

O colega jornalista Osíris Duarte inaugurou seu blog, o http://www.palavraodoosi.blogspot.com. Faz uma visita!

O Rosto de um Impostor

Raul Fitipaldi

Antes de iniciar este artigo acabo de lhe escrever ao amigo David Romero Ellner, diretor da Rádio Globo Honduras lhe comunicando minha felicidade pelo fato do verdadeiro rosto do impostor Oscar Arias ter vindo à luz. A história desse canalha peão do Império se estampa para sempre, e seu cinismo ordinário se declara, com seu apoio às Eleições Fraudulentas e Criminosas em Honduras. Esse é o trapaceiro Oscar Arias.

O Prêmio Nobel, essa ficção moral, está para isso. Para que um sátrapa desta estirpe possa ventilar suas mentiras em nome do que não acredita, daquilo para o qual não serve, e que a serviço da guerra, do ódio e do crime, chame à paz dos cemitérios. São os altos funcionários das oligarquias e do capital transnacional os que falam de paz na CNN, na Rede Globo, no El País de Espanha, são os modeladores de opinião do neoliberalismo, do conservadorismo, do modelo que a muita custa nossos valentes povos de Abya Yala estão quebrando, passo a passo, assembléia a assembléia, lei a lei, voto a voto.

O Império já não tem peões sobrando. Gasta suas últimas fichas nos indecorosos alunos da CEPAL, do BID, da OMC, da antiga Escola da Morte das Américas, nos Vermes de Miami, nos delinqüentes de colarinho branco. Traça seus planos macabros com os titulares e o banco daquelas bestas já largamente identificadas, no time dirigido pelo coach John Negroponte e seus forwards Biilie Joya Améndola, Otto Reich, Roger Noriega, e o maior de todos, Luis Posada Carriles.

Piores todos estes que os piores ditadores, pois, são os seus mandantes, são os que descem o polegar contra o povo, são os criminosos que vivem da guerra, do terror e da morte. Oscar Arias justifica suas existência social e política como puddle festeiro desta elite grotesca em decadência. Oscar Arias, Enrique Iglesias, Carmona Stanga, Gonzalo Sánchez de Losada, Fox, Toledo, Alan García, Vargas Llosa, os trôpegos fantasmas de um imperialismo moribundo, porém, por isolado e encurralado, mais violento, mais grosseiro, mais perigoso, mais inumano.

Oscar Arias, uma garra do imperialismo. Agora está mais claro, que bom, outro cadáver político da reação.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Árvore milionária e um Feliz Natal... pra quem?

Por Elaine Tavares - jornalista

Já vem chegando o Natal e, nas ruas da cidade, já se pode notar aquele agitar frenético das promoções, dos descontos e das liquidações. Tudo para alavancar as comprar e fazer o comércio aumentar o seu bolo de lucros. As gentes já circulam irrequietas, fazendo cálculos para gastar o décimo terceiro com alguma coisa que o desejo vem consumindo desde há meses e que, com a crise, não conseguiram comprar. Agora, quem sabe em 24 vezes... Há uma pressa louca em consumir, buscar presentes para amigos secretos, nem tão secretos, amores, filhos etc... E a nave capitalista vai, estraçalhando as finanças de gente que já ganha tão pouco. Mas, fazer o quê? A pedagogia da sedução metralha pela televisão todos os sonhos de consumo. Mais-valia ideológica sugando o sangue do povo.

Nestes dias, quase ninguém mais se lembra de que o natal é o dia sagrado do aniversário de Jesus, na crença cristã. Dia de oração, de momentos contemplativos. O Papai Noel só entrou na parada bem depois, em 1931, quando a Coca-Cola decidiu usar uma linda história de um bispo turco que distribuía presentes aos pobres nesta época do ano – São Nicolau – para aquecer as vendas. Colocaram nele uma roupa vermelha, as cores da empresa e difundiram a lenda do bom velhinho. Desde então, a figura do menininho Jesus começou a perder espaço diante da sanha pelos presentes.

A cidade de Florianópolis tem como tradição encher suas ruas de luzes no natal, assim como grande parte das cidades do mundo ocidental/cristão. O povo gosta, fica bonito. Mas as gentes se esquecem que isso custa dinheiro, e muito, um dinheiro que de algum lugar sai. É o caso da proposta da construção de uma árvore de natal gigante, de 60 metros, toda em alumínio, que será “oferecida” ao povo nas festas deste ano. O contrato está no Diário Oficial do Município do dia 16 de novembro. É uma árvore-palco que abrigará as festanças do dia de natal. A bichinha custará a bagatela de três milhões e setecentos mil reais. Uma dinheirama. A pergunta é: vale a pena isso aí?

Esta semana eu fui ao posto de saúde do Morro das Pedras marcar um dentista. A atendente disse: “não tem. Só no ano que vem, talvez... O contrato da dentista acabou e a prefeitura não contratou outro”. A moça da limpeza que trabalha na UFSC e mora na periferia também vai ter de passar o natal com o dente doendo. No posto de saúde aonde vai tampouco tem dentista. “E ainda vou ter de usar o meu décimo - terceiro pra fazer um ultrassom. Espero há um ano, mas a doença não”.

Bom, agora o povo de Florianópolis pelo menos sabe. Não há verba para contratar dentistas, mas há para fazer uma árvore natal gigante que será desmontada dias depois. Três milhões e setecentos mil garantiriam dentistas aos postos de saúde por anos seguidos. Mas não, é Natal. E há que dar circo ao povo. Aprenderam com os romanos que é assim que tem de ser para se manter no poder. Eu, cá na minha insignificância penso que temos de ter circo sim, mas também saúde e educação.

E todos os dias, as gentes ficam nas filas esperando vaga para aliviar a dor. Já naturalizaram a miséria, como outro dia na fila do posto. “Tinham de por um abrigo aqui pra gente não ficar no sol”, disse uma senhora, triste por estar mais de uma hora em pé, no tempo”. E eu a bufar: “Não tinha era que ter fila, minha querida. Isso é um direito da gente”. E ela, perplexa: “Mas... É mesmo!” E assim vamos...!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Enfim, sou uma mulher de cabelos brancos!


Por Janice Miranda, de Santo Amaro da Imperatriz


O que era para ser apenas mais uma ida ao cabeleireiro, apenas mais um corte de cabelo (coisa comuníssima em minha vida, pois vivo mudando o visual, como dizem os amigos), acabou se transformando na descoberta da década - pelo menos para mim. Com as madeixas já curtas, decidi que o verão pedia ainda mais frescor e menos frescura. Sentada na cadeira do meu cabeleireiro, sentenciei: "Corta 'tudo', Serginho, deixa bem curtinho!". Relutante, porque é adepto dos cabelões, ele foi se empolgando e num bailado magistral com a tesoura deixou meu cabelo virgem, sem nenhum vestígio de tintura (coisa incomum, no meu caso). O resultado ficou perfeito! Feliz, fui para casa.

Minha filha Mahara elogiou a nova cor e perguntou qual era. Expliquei que não havia tintura nenhuma, que era a cor natural do meu cabelo, mas que já havia marcado uma "pintura" para a semana seguinte. Do alto de sua doçura e curiosidade muito próprias, a minha pequena veio de perto conferir. Recebi um ultimato: a cor estava ótima e eu não deveria "pintar" coisa nenhuma. Fiquei mais feliz ainda e decidi deixar que o couro cabeludo respirasse e eu, curtisse meu tom. De frente para o espelho e com aquela imperdoável (quase maldita) luz especial para maquiagem em meu rosto, veio a notícia. "Mamãe, achei um cabelo branco em você. Ih, achei outros aqui atrás. Mãe, tá cheio!".

Fiquei paralisada, em choque. Perguntei várias vezes se minha filha tinha certeza. Para alguns pode parecer bobagem, faniquito feminino, sei lá. Afinal, uma mulher de 43 anos, como eu, ia querer o quê? Um dia, o cabelo branco ia "pintar". Mas o fato é que até agora, a maioria das pessoas tem me dado (naqueles chutes chatos e fora de hora, em que algum engraçadinho tenta adivinhar a idade da gente), pelo menos, de sete a dez anos menos do que o que está lá, bonitinho, na carteira de identidade. Com o cabelo branco, não vai ter jogo. A média de apostas vai baixar, tenho certeza. Ai, ai.

Uma das primeiras coisas que vislumbrei foi minha irmã, tirando sarro, dizendo que agora eu a entenderia. Mais velha, ela vive tentando me explicar que não pode deixar os cabelos crescerem, sem as pinceladas mágicas das tinturas, porque... tem muitos cabelos brancos, fica horrível receber os pais na escola daquele jeito e coisa e tal. E que eu não a entendo, porque não tenho cabelos brancos. Bem, talvez, agora, eu a entenda.

Fiquei um tempão na frente do espelho, tentando encontrar os até então desconhecidos fios brancos. Sim, porque eles são muitos e estavam bem escondidinhos, só esperando para me dar o bote. Comecei a matutar no significado daquilo, quem sabe na mensagem que a vida quisesse, gentilmente, me mostrar. Certamente, um momento de transição.

Afastada do meu trabalho profissional, por questões de saúde, vejo com alegria, que o faro e a curiosidade de jornalista não me abandonaram. Mesmo que a atual situação não me permita ficar um tempão teclando no computador (o que afinal, vamos falar a verdade, não é saudável para ninguém), as informações não têm se perdido. Tenho alimentado minha mente e meu espírito com sede de aprendiz, de estudante.

As constantes visitas à biblioteca pública municipal foram gratificantes. Resgatei um tempo precioso. Devorei Gabriel García Márquez, Jorge Amado, Shakespeare, Mário de Andrade até Shirley Maclaine. Livros sobre como organizar sua casa e ser feliz (foi bom ver que não preciso disso para sorrir), como se adaptar bem a diversos ambientes de trabalho (parei na metade, porque o que importa no final é vivenciar), nada escapou, nem aquelas receitas esdrúxulas, com ingredientes caríssimos, que a gente nunca faz porque acha (e é) um absurdo o que se tem que pagar.

Nesse período consegui acompanhar minha sensível e amada filha Mahara também num momento de transição. Ir para uma nova escola, passar da quarta para a quinta série, ver que a querida "tia" ficou para trás e perceber que os dez novos professores não estão tão preocupados com o joelho machucado no recreio ou se têm duas, três provas no mesmo dia. Vi surgir uma poetisa, uma bailarina em flor, uma menina moça adorável.

Reconheci, por todos os poros da minha casa, nas coisas que parecem mínimas (mínimas o quê!) o quanto há de felicidade em minha vida. Deito todas as noites na minha cama e vejo, agora com mais clareza ainda, a meu lado, um companheiro ímpar de jornada. Amigo na medida certa, professor firme e ao mesmo tempo zeloso, amante sem medida, sempre à busca do sorriso mais escondido, do desejo impublicável. Estive por perto para ver seu crescimento profissional, merecido, pelo respeito e humanidade com que conduz sua vida. Sou plena, hoje eu sei, pelos vinte anos de total cumplicidade e amor que sempre permearam minha relação, com meu parceiro de vida, meu Príncipe George Willians.

Olha só quantas coisas boas, uns simples e até há pouco, escondidos fios de cabelos brancos fizeram eu enxergar. Sou amada, mãe, jornalista, tenho família e queridos amigos, uma casa linda (porque cheia de felicidade!), leio feito doida, não deixo maltratar bicho, quero ser ouvida e respeitada, busco um mundo melhor, quero vida. Que legal, sou uma mulher de cabelos brancos!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

QUEM TEM DIREITO AOS DIREITOS HUMANOS?

Por Li Travassos, de Florianópolis

Várias declarações de direitos reverteram naquela que, universal, foi adotada em 1948 pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Esta, que proclama os direitos civis, políticos e econômicos dos seres humanos, intitula-se – como suas precedentes da França e Inglaterra – Declaração dos Direitos do Homem. Na França, ao menos a primeira Declaração, de 1789, intitulada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, tinha este sentido estrito – eram direitos dos quais as mulheres eram excluídas. E vale lembrar que, na primeira tentativa de democracia do mundo, na Grécia que escravizava os povos mais fracos, no final do século VI, somente são tidos como cidadãos os homens (no sentido de sexo masculino) adultos e livres.
Vale também lembrar que, no Brasil, assim como nos Estados Unidos, foram escravizadas pessoas negras, arrancadas do Continente Africano, e que nossas terras foram colonizadas ao custo do sangue aborígene. A humanidade de mulheres, de "loucos", de negros, de índios e mesmo das pessoas pobres já foi questionada – foram considerados "sem alma" pela Igreja Católica, que assim justificava e liberava todo tipo de violência contra eles, mesmo que esta violência resultasse em sua morte. Quanto aos homossexuais, já foram considerados criminosos, perdendo seus direitos quando seu "desvio" era comprovado. Menores de idade não são tidos como cidadãos. Assim, "quem tem direito aos direitos humanos" é uma pergunta silenciosa que se repete a cada vez que é necessária uma luta específica pelos direitos de cada uma destas parcelas da humanidade – pois há quem pareça não lhes creditar direito algum.
Por tudo isso, acaba não causando estranheza a ninguém a existência de pessoas na aparentemente eterna luta pelos direitos das mulheres, dos negros, dos índios, dos homossexuais, das crianças, das "pessoas em sofrimento psíquico ²" e dos miseráveis... Mas estas lutas denunciam, de alguma maneira, o enraizamento do macho branco, rico (e adulto) no poder. Senão haveria apenas uma luta: a luta pelos Direitos Humanos. Porque os Direitos Humanos não são direitos que nos damos, enquanto pessoas, diante de outros animais. Não são direitos em relação aos vegetais. Nem aos minerais muito menos. Os Direitos Humanos são uma tentativa de garantir os direitos de pessoas em relação a outras pessoas.
Mas – e aqui é preciso prestar atenção – embora os Direitos Humanos falem, no geral, dos direitos de todas as pessoas, e de que não se pode fazer diferença entre elas, há especificidades nos grupos acima citados, que exigem lutas específicas por seus direitos. Mulheres são diferentes, quanto mais não seja na questão reprodutiva, e por uma maior fragilidade física. Os negros foram tratados como diferentes por tanto tempo, que acabaram ficando diferentes mesmo – diferentes em suas possibilidades de estudar, de crescer profissionalmente... Os índios são diferentes, e é preciso que se preserve esta diferença, porque se trata de uma riqueza cultural que não deve ser perdida. Crianças e adolescentes são diferentes, pois são mais frágeis, e estão em processo de formação – física e psicologicamente falando – e são, em maior ou menor medida, dependentes. Aqueles que vivem na mais absoluta miséria são diferentes por não terem acesso a nada daquilo que é necessário à dignidade humana – e não são, de imediato, capazes de conquistar tais coisas sozinhos. E as pessoas em sofrimento psíquico são diferentes porque dependem, em certa medida, de uma ajuda profissional para lidar com este sofrimento.
Mas de quem estas pessoas todas são diferentes? Do homem, heterossexual, adulto, branco, rico e psiquicamente "saudável". Este então é o monstro que deve ser enfrentado? Logicamente não. Há pessoas ótimas que se encaixam em todas as categorias acima citadas. Pessoas responsáveis inclusive por diminuir as desigualdades entre os seres humanos. Porque é disto que se trata: de diminuir as desigualdades sem, contudo, esquecer as diferenças. Ou então as mulheres, os negros, os índios, os homossexuais, as crianças, os pobres e os "loucos" estarão sempre na condição de "humanos de menos", com direitos desiguais.
Talvez chegue o momento em que possamos ter apenas uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, com seções que contemplem o que há de específico em alguns grupos humanos (como as mulheres, por exemplo). Até lá, teremos que continuar lutando em prol da inclusão de todos os seres humanos no rol destes seres humanos que têm seus direitos garantidos.
Por isso, na luta pelos direitos das mulheres no Brasil, foi necessário criar uma lei. Uma lei para tentar diminuir a mortalidade feminina em função da violência doméstica. Para tentar diminuir as vítimas da violência doméstica. Para normatizar a situação dos agressores. Esta Lei tem o nome de Maria da Penha. Nome de uma mulher que ficou paraplégica em função da violência doméstica, e que se tornou um símbolo da luta pelo fim da violência contra a mulher. Mas como no Brasil nem tudo que é lei é seguido como lei, foi criado, em SC, o FÓRUM ESTADUAL PELA IMPLANTAÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA.
Dia 25 de novembro é o DIA INTERNACIONAL PELO FIM DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. Por isso, no dia 24 de novembro, terça feira, o Fórum estará realizando uma série de atividades, conforme programação abaixo, para cobrar ações do Governo do Estado na implementação da lei, e para aumentar a consciência e o entendimento de todas as mulheres e homens comprometidos com os Direitos Humanos de todas as pessoas. Participe! Venha somar sua força a esta luta!
1. Este texto foi adaptado de outro, da mesma autora, que foi lido na Câmara dos Vereadores de Florianópolis em 7/03/2005, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher (8 de Março), representando as seguintes entidades: CEDIM, CEPA, CRESS e CRP.
2. Termo politicamente correto atual para designar as pessoas com distúrbios psíquicos graves, que antes chamávamos de psicóticos, ou de doentes mentais, e que o povo chama de loucos. Temo que mudar a nominação não mude em absoluto a relação da sociedade com estas pessoas.

ATIVIDADES PROPOSTAS PELO FÓRUM ESTADUAL PELA IMPLANTAÇÃO DA LEI MARIA DA PENHA, NO DIA 24/11/2009, AUDITÓRIO ANTONIETA DE BARROS, ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE SC:
09:00 h – Audiência Pública – A Implementação da Lei Maria da Penha em SC.
13:30 h – Seminário
– Palestras seguidas de debate:
 Preconceitos de gênero como geradores da violência doméstica
Li Travassos – Graduação em Psicologia pela UFPR em 1987. Mestrado em Psicologia pela UFSC em 2003, com o tema: Mulher, História, Psicanálise.
 A cultura da discriminação e violência: pensando estratégias de discriminação
Samantha Buglione – Mestrado em Direito. Doutorado em Ciências Humanas. Professora de Direito e Bioética na graduação e no mestrado em Gestão de Políticas Públicas da UNIVALI. Coordenadora do CLADEM Brasil.
– Discussão das diretrizes do Fórum em 2010
– Caminhada em direção à Catedral, depois até a Esquina Democrática (Felipe Schmidt com Deodoro), onde haverá um Ato Público.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um ano da tragédia em Blumenau

Por Elaine Tavares - jornalista

Em novembro de 2009 completou um ano da grande chuva que fez Blumenau derreter. Uma tragédia anunciada, visto que várias pesquisas e estudos de professores da FURB há muito denunciavam a fragilidade dos terrenos nas partes da cidade em que os morros desabaram. Mas, enfim, a desgraça baixou e mais de cinco mil pessoas ficaram sem suas casas, isso sem contar os que perderam sua vida. Boa parte destas pessoas acabou levada para abrigos e todas esperavam que suas vidas voltassem ao normal, afinal, não foi pequena a ajuda que as gentes brasileiras deram aos desabrigados de Blumenau. Mas, o que aconteceu foi bem diferente e um número muito grande de famílias ainda não tem um lar.

No dia 21 de novembro, um sábado, enquanto o prefeito da cidade, João Paulo Kleinubing, dava entrevista nos meios de comunicação de massa, falando da beleza da obra de reconstrução feita pela sua gestão, a cidade real se manifestava em frente à catedral, tentando mostrar para a população que passava apressada para as compras, que há uma verdade escondida e que não aparece no jornal.

Quem passa pela área dos pavilhões da PROEB vê como a prefeitura foi eficaz na limpeza e na reconstrução. Tudo está bonito. “Na verdade, a grande massa do dinheiro foi para os empresários, donos das cervejarias, para o atendimento aos turistas na Oktoberfest. As pessoas mesmo de Blumenau, as que sofreram com o desastre e não tem renda suficiente para recomeçar ou parentes ricos, estão ainda nos abrigos”, diz uma professora da Furb. “E tem mais, esse povo não vai na Oktober. Esta é uma festa para turistas”.

Uma artéria importantíssima da cidade como a Rua das Missões está há um ano com uma imensa cratera e tudo o que foi feito pela administração foi uma marcação com cones para que os carros não caiam no abismo. “A gente pobre segue como sempre foi. Abandonada”.

Na manifestação do Movimento dos Atingidos pelo Desastre participaram famílias desabrigadas de Blumenau, de Gaspar e Ilhota. E o que se pode notar é o desespero de não ver sua voz expressa com o mesmo destaque que a dos empresários e político. “Por favor, não esquece de falar aí na tua reportagem sobre o pessoal de Gaspar, a gente tá abandonado lá”, pedia um jovem pai, massacrado pela idéia de que nunca mais vai poder ter sua casinha de volta. “Era simples, mas era minha”.

Os representantes do MAD falaram da área de ocupação, em Blumenau, onde estão as famílias que se recusaram a ficar nos abrigos, uma vez que lá, sequer podiam se manifestar sem ser reprimidas pela vigilância da prefeitura. “Nós estamos ali na ocupação, todos os dias, resistindo, denunciando, ajudando as famílias desabrigadas, passando informações, organizando. A gente só pára este movimento quando a última casa for entregue ao último desabrigado”. Segundo os membros do MAD, restam ainda mais de 1500 pessoas sem casa e sem qualquer ajuda da prefeitura. Tudo é muito lento para os pobres. As prioridades são sempre para áreas mais visadas pelo turismo. Os abrigos provisórios vão se eternizando e as pessoas que lá vivem sequer podem fazer reuniões. São proibidas.

Os jornais que circulam em Blumenau como o Santa e o DC, ambos da RBS, deram destaque às obras de reconstrução da cidade, mostrando em infográficos tudo o que já foi refeito. Mas, como é natural em veículos que não praticam o jornalismo e sim a propaganda, as obras que aparecem como realizações da prefeitura são na sua maioria conclusões de obras já orçadas do governo federal. Tudo é computado como reconstrução do desastre, mas muito pouco do que está ali é coisa voltada para os desabrigados. Estes continuam tendo de se organizar coletivamente, com o apoio de sindicatos e alguns poucos políticos. Quem se atreve a andar pela Blumenau real imediatamente vê que o que dizem os jornais é só uma visão do poder. As famílias humildes que se concentraram em frente à catedral naquele sábado de chuva, com suas faixas e suas dores, precisam, além de lutar pelos seus direitos, enfrentar a terrível indiferença que já começa a se sentir por parte dos que voltaram à vida normal.

No geral, aqueles que conseguiram se reerguer seguem com suas vidas e, massacrados pela desinformação dos jornais, acreditam que os que ainda estão nos abrigos é porque não se esforçam o suficiente. Numa cidade onde o conceito de trabalho faz parte da vida como uma segunda pele, esta idéia de que os desabrigados precisam mais é trabalhar, fica visível no rosto dos passantes que, muitas vezes se recusam até de pegar um panfleto.

E assim segue a vida nesta cidade de festas de outubro, chope e bandinha. Mas, nas suas entranhas se move um povo que não pretende desistir. O desastre, com toda a sua dor, trouxe também o germe da luta para o vale. E isso já se espalha, lento, mas seguro!

Veja o vídeo do ato do dia 21. http://www.youtube.com/watch?v=mR-O1mrfgao

Leia a matéria sobre o desastre em 2008 –

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mundo dos Repórteres

Míriam Santini de Abreu

O jornalismo que desaloja é o jornalismo da reportagem. Tenho lido textos sobre a prática do jornalismo desde que foi publicado o acórdão que selou o fim da exigência do diploma nessa área para o exercício da profissão. Na quarta, dia 18, falou-se sobre o assunto em um seminário do qual participei como palestrante promovido pelo Instituto do Meio Ambiente da Bahia. Houve quem defendesse e quem reprovasse a decisão, com argumentos mais ou menos consistentes.
Mas acabo de ler uma reportagem no Le Monde Diplomatique de novembro e mais uma vez percebo que a reportagem, que cada vez mais perde espaço para noticiazinhas nos jornais e revistas, é o que distingue o trabalho jornalístico de qualquer outra atividade de escrita que se proponha a interpretar o mundo.
No acórdão do STF está escrito que “o jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensadas e tratadas de forma separada”. Ora, liberdade de expressão é direito humano fundamental, e não atividade. E o jornalismo tanto é uma profissão quanto uma forma de interpretação da realidade.
Essa forma de interpretação pressupõe teoria e prática, e a prática que expressa com mais riqueza interpretativa, narrativa, a realidade, do ponto de vista jornalístico, é a reportagem. E o repórter, de todas as funções que um jornalista pode exercer, por sua vez é o que mais traz em si o caldo fumegante da prática jornalística.
Estão a se crer jornalistas todos os que agora talvez possam verter seus textos nas páginas dos jornais e revistas. Antes já podiam... Estão a escrever cartas, crônicas, artigos, resenhas, talvez até pequenas notícias. Mas, diabos, quero ver se escrevem reportagens! Porque basta o domínio da língua portuguesa e um pensar raso, mediano ou profundo sobre o mundo para se sentar na frente do computador e dar pitacos sobre o governo, a crise, o mais recente lançamento literário, quem deu para quem no mundo dos ricos e famosos, o apagão, a Copa. Mas reportagem é outra coisa!
A que li no Le Monde Diplomatique fala sobre as “maquiladoras” no México, nome das fábricas que recebem peças, montam os produtos e os reenviam aos Estados Unidos. Fosse o texto escrito por alguém da Universidade, do Mundo dos Negócios, do Mundo dos Profissionais Liberais, do Mundo dos Consultores, teriam escrito algo mais ou menos denso, mais ou menos crítico, alinhavando estatísticas, percentuais, algumas frases feitas, um histórico sobre como as “maquiladoras” se instalaram no país. Se o escrevente fosse um cabeça-de-planilha, como diz o Nassif, certamente elogiaria a vitalidade do setor para aquele país e em como emprega milhares de pessoas. Um escrevente com olhar menos viciado pela balela neoliberal falaria sobre a forma como os trabalhadores são tratados, a miséria que recebem, o impacto ambiental e a falta de compromisso com condições dignas de trabalho. Mas tudo com base em um discurso universal, válido, respeitadas as diferenças, para situações mais ou menos semelhantes no sórdido mundo das corporações. E para escrever de um modo ou de outro, bastaria dar uma boa varredura na internet ou, no caso de escrevente mais sério, ter ido in loco verificar o que lá se passa. Escrever sobre isso seria emitir uma opinião sobre o assunto, consolidando a liberdade de expressão, e sem precisar levantar da cadeira!
Mas, caralho!, a jornalista Anne Vigna, a repórter Anne Vigna, foi até lá fazer reportagem. E como é isso, perguntam? A-ha! A repórter leu sobre o assunto, foi até o México, esteve em “maquiladoras”, ouviu trabalhadores, sindicalistas, representantes dos empresários e do governo, especialistas da Universidade. Apresentou estatísticas. Descreveu ambientes, situações e pessoas.
Sabemos, por ela, que uma operária foi suspensa por dois dias porque fez uma peça ruim entre as 700 que produz em um dia. Ela recebe o equivalente a 98 reais por semana. Também sabemos que a fila de trabalhadores na frente das “maquiladoras” começa a se formar perto das cinco da manhã, e as pessoas temem reclamar do que quer que seja por medo de não conseguir uma das vagas . A repórter conversou com operários sobre as graves doenças que desenvolvem os que trabalham com chumbo, elemento que vai nas baterias de equipamentos eletrônicos. Trabalhadores que não podem falar ou ir ao banheiro durante o expediente, e que passam até 10 horas seguidas em pé. As 8 mil toneladas de chumbo enterradas sob uma capa de concreto para não continuar a poluir a natureza. Ah, a pujante economia proporcionada pelo acordo que o México fez com os Estados Unidos...
Anne Vigna em nenhum momento expressa sua opinião sobre o que vê e ouve. Mas toda a forma de construir a reportagem – como fazem os grandes repórteres – deixa escorrer do texto uma lava. Uma lava que desce por canais formados por domínio das técnicas narrativas, por capacidade descritiva, inúmeras informações precisas e – sim, isso é evidente no texto – um amor profundo pelo ser humano que sofre. E o que Anne faz ao final do texto é perfeito, porque ela cede a uma das operárias que entrevistou a frase que conclui a reportagem. E essa frase aponta o que diz o geógrafo Milton Santos, para quem os portadores do futuro são os “homens lentos”, os empobrecidos. O sumo do pensamento de Milton está naquela frase final, dita por uma operária demitida depois de ter sido sugada por 25 anos e não ter recebido seus direitos trabalhistas.
Essa lava que Anne deixa jorrar de sua reportagem é o jornalismo que desaloja.
Deixemos que esse povo da Universidade, do Mundo dos Negócios, do Mundo dos Profissionais Liberais, do Mundo dos Consultores, fale sua verdade nos jornais e revistas. Mas Reportagem, a forma por excelência de o Jornalismo interpretar o mundo, é coisa para o Mundo dos Repórteres.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Novo canal de comunicação

Estamos no Twitter! O endereço é www.twitter.com/pobresenojentas

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sete pontos sobre o acórdão do STF e o jornalismo

Por Elaine Tavares - jornalista

Quando o mundo feudal europeu caiu, após mais de mil anos de existência, não foi por acaso. Esse processo foi fruto de uma profunda revolução levada pela classe burguesa em ascensão. Mais tarde, essa mesma classe trouxe à luz outros sistemas de organizar a vida – o mercantilismo e o capitalismo – que, com as invasões de território pós 1492, foram trazidos também para o que hoje chamamos de América Latina (ou Abya Yala), nosso espaço geográfico de existência. O capitalismo, depois de mais uma revolução tecnológica, nominada como revolução industrial, cresceu, ficou forte e passou por diversas crises, mas sempre sobrevivendo. Hoje, ele se expressa como imperialismo, que é o tempo em que a livre concorrência (proposta do capitalismo mercantilista) é substituída pelo monopólio.
Leia artigo na íntegra no sítio: http://www.iela.ufsc.br/?page=noticia&id=1154

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Consciência de classe

Por Elaine Tavares - jornalista

Florianópolis tem suas delícias, mas também abismos. Um deles é o transporte coletivo. Incrível como os políticos de plantão conseguem piorá-lo, quando se pensa que isso seria impossível. Pois agora inventaram de cortar horários. E os argumentos? Ah, os argumentos... São singelos: existem horários em que há menos gente circulando, logo há que ter menos ônibus. Lição de lógica. Assim, diminuem-se ainda mais os custos para os empresários, porque afinal, eles sofrem muito para manter suas frotas.

Bueno, mas se a lógica do serviço público é essa – e temos de lembrar sempre que o transporte coletivo é um serviço público – então teríamos de aplicá-la em todos os níveis. Assim, a partir de agora, os estados deveriam cortar a água nas residências no horário das 15 às 18h. É que nestas horas tem pouca gente usando água. E também deveriam cortar a luz entre 10 e 17h, pois parece que aí também tem menos gente usando a energia elétrica. E assim por diante...

O mais incrível destas decisões esdrúxulas da prefeitura de Floripa é que elas não provocam rebelião. Engraçado que outro dia, quando os motoristas de ônibus paralisaram algumas horas para reivindicar a permanência de seus colegas cobradores no emprego, teve gente que, indignada com os trabalhadores, chegou a destruir catracas no terminal. Gente tomada de ódio pelos motoristas, “esse povo irresponsável”.

Mas, contra o empresariado e os políticos que nos deixam horas e horas mofando nos terminais nestes dias de calor infernal, ninguém diz nada. Ninguém quebra catraca ou incendeia ônibus. Bom, parece mais fácil explodir contra os iguais. Outro dia peguei um ônibus, destes que não têm janela – o que é um atentado à vida. E o ar não funcionava. Tirando eu e outra mulher que bradávamos, ninguém dizia um ai. E fomos todos sufocando até o Rio Tavares. Eu havia conclamado o povo para ir falar com o fiscal, mas quando o ônibus parou, saíram todos correndo. Só eu fui pedir ao fiscal que não deixasse sair o ônibus, pois estava sem ar. Uma voz solitária e inútil.

Ele mentiu. Disse que ia tirar de circulação. Eu entrei no ônibus do Castanheira e quando vi lá estava o ônibus, indo para o ponto do Rio Tavares direto. Sai correndo, mas não deu tempo de impedir. As pessoas ficaram rindo de mim. Eu perdi meu ônibus e tive de esperar mais 30 minutos pelo outro. E as gentes de cabeça baixa, fingindo não perceber que aquilo que devia ser um direito lhes é negado todos os dias. Eu me indigno, mas não desisto. Um dia, quem sabe, os trabalhadores entendem o que é consciência de classe, que é essa coisa de saber o lugar que ocupamos no mundo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A energia está no sol

Entrevista com o genial sociólogo Gilberto Vasconcellos. Para fruir.