Domingo, 5 de Julho de 2009

Um povo herói cobrado

Li Travassos, de Florianópolis

Há quem tenha ataques de saudosismo e fique lembrando os "bons" tempos em que não havia luz elétrica, água encanada, banheiro dentro de casa, e outras coisas absolutamente fundamentais para que tenhamos um mínimo de conforto em nossas vidas. Eu, que passei minha infância podendo assistir TV, que em certo momento da minha adolescência passei a ter telefone em casa, que só fiquei sem luz na minha própria casa por conta de quedas temporárias de energia, que depois que fui apresentada a um computador não sei mais viver sem internet, não sonho em abrir mão de nenhum dos confortos que estas coisas nos proporcionam.
Até porque, já estive em casas com "casinha" ao invés de banheiro. Já passei vários dias em uma cidade no meio da Floresta Amazônica, onde não havia caixa d'água e a luz elétrica só dava o ar da graça das 18 às 22 horas, não havendo portanto geladeira, possibilidade de você tomar banho na hora que queria (apenas nas horas em que vinha água, duas vezes por dia, fora isso, só se fosse de "canequinho"), chuveiro elétrico (este não fazia falta mesmo, devido ao calor), nem nenhum conforto habitual. Já acampei na velha praia de Quatro Ilhas, quando não havia nada de nada lá, no meio da areia, indo "filar" banho de chuveiro no Retiro dos Padres. Do mesmo jeito, já acampei na velha Ilha do Mel, tomando banho de bica e fazendo xixi no mato. E, quer saber? Sempre odiei tudo isso.
Agora, também acho complicado viver tendo toda comodidade à disposição, mas sendo isso tudo caríssimo e, às vezes, o serviço muito ruim. Não sei você, mas fico tentando fazer minhas contas caberem dentro do meu orçamento, não entrar no cheque especial, e todos os meses é um fracasso. Por vezes penso que deveria tentar viver dentro do meu padrão, penso que gasto demais. E gasto mesmo, mas será que poderia gastar menos e não sei?
Então vejamos: moro num apartamento que é um ovo, no Centro da cidade. Num lugar que ainda é seguro, porque residencial. Pago uma fortuna de aluguel e condomínio, justamente por morar nesta região. Então, eu poderia muito bem ir morar na p-q-p, dirá você. Mas daí, como precisaria vir para o Centro quase todos os dias, iria gastar um tanto a mais de transporte, que normalmente seria o coletivo (o Ônibus acabou de subir em Florianópolis, de novo, como você já deve saber), mas correria sempre o risco de ter que sair tarde da noite de algum lugar, e ter que pegar um táxi. Além disso, sou uma defensora radical de que as pessoas procurem morar perto de seu trabalho e de suas outras atividades diárias, posto que assim não precisam ter carro, nem precisam ajudar a lotar os ônibus, nem a transformar, de nenhuma forma, o trânsito de sua cidade num inferno. Caronas são sempre bem vindas, especialmente de noite ou com chuva, posto que assim não se gasta nada ("o casi nada, que no es lo mismo, pero es igual" [1]) a mais do que se gastaria com o mesmo carro levando menos gente dentro.
Voltando para a questão de quanto custa morar no Centro, levando em conta ainda que, quando houvesse greve de ônibus eu não poderia trabalhar, sendo eu autônoma, deixaria de ganhar mais um tanto. Assim, me parece que morar no Centro, além de custar quase o mesmo em termos financeiros do que morar na p-q-p, custa muito menos em termos de saúde mental.
Falando em ser autônoma, você sabia que quem não tem emprego e trabalha por conta tem que pagar 20% do que ganha para a previdência? Se ganhar salário mínimo, pode pagar "só" 11%, mas, acima disto, é 20%. Ou seja: quem ganha 600 reais tem que pagar 120 para a previdência, quem ganha 1000 tem que pagar 200, quem ganha 1500 tem que pagar 300, quem ganha 2000 tem que pagar 400, e assim por diante! E isso tudo para fazer parte de um Sistema Único de Saúde que de único não tem nada, e para garantir(?) uma aposentadoria meia boca.
Justamente em função disso eu pago uma fortuna de plano de saúde. Com garantia de internação e tudo o mais. Quanto mais velha fico, mais caro fica o plano. Então, por que você não deixa de pagar, pergunta você? Porque, como já sugeri acima, o SUS é um terror. Porque se eu precisar de um exame com urgência vou acabar tendo que pagar, o que pode sair mais caro que pagar o plano de saúde por vários meses. Porque faço check-up semestral em função de algumas mazelas já existentes. Porque espero não precisar de nenhum tratamento caríssimo, mas se precisar, não tenho de onde tirar dinheiro. Porque "não transmiti a ninguém o legado de nossa miséria" (2) e portanto não terei filhos para cuidarem de mim na velhice. Porque, enfim, não tenho colhões para ficar sem plano de saúde.
Ainda, para não enlouquecer de vez com a programação da TV aberta, tenho o básico dos básicos de um pacote de TV a cabo, incluindo internet a cabo também. Esta última é uma droga, às vezes fica super lenta, mas fiquei sem ela estes tempos, devido a um problema do provedor, e levei duas horas para baixar um e-mail, o que me fez lembrar de meus tempos de internet discada, e da fortuna que eu acabava pagando a mais na conta do telefone... Por falar nisso, tenho um telefone fixo (família em outra cidade...) e um celular pós pago – no qual pago o menor pacote possível, mas se gastar mais minutos do que tenho direito acabo pagando mais caro...
Como só sai o básico do meu fogão, às vezes acho que gasto demais no supermercado. Mas estou fazendo regime, comprando bem menos "besteiras", e as contas do super continuam um horror. Roupas? A maioria compro pano e mando fazer, garimpo um monte em brechó... Gasto um pouco mais em sapatos, já que ando muito e detono bastante os ditos cujos, mas como faço questão de sapato que não seja de couro, então eles são baratinhos também... Claro que tem também roupa de dormir, roupa íntima, meias, etc., e quando a gente vê...
Para além disso, tem os tais cartões de crédito, que são um terror: você acaba comprando o que não precisa, e depois se arromba para pagar. Mas de quê a gente precisa também é questionável ("a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte..." [3]). Então, quando eu compro um livro, sempre dá uma dor na consciência, mas depois eu mando a consciência passear, que eu também não vivo sem eles...
Completando a felicidade de pagar mil contas, vai ter sempre um infeliz que trabalha com tele marketing te ligando, para te oferecer mais um porrilhão de serviços daquela empresa cujos serviços você já usa, ou para te convidar para mudar para outra empresa, ou simplesmente para te enlouquecer. Quando é você que precisa ligar para uma empresa que te presta serviços, já é outra coisa você conseguir completar a ligação e resolver de alguma forma o problema. Tenho tentado, arduamente, não ter um siricotico a cada vez que falo com um atendente de tele marketing ou de atendimento ao consumidor, mas nem sempre consigo... Porque o que acho pior, mesmo, é que além de termos que pagar por tudo, de que tudo custa caríssimo (e você fica pensando: quem é que dá conta de pagar, como é que vivem as pessoas que recebem salário mínimo...) o pior é saber que a qualidade dos serviços e, em especial, do atendimento ao cliente, deixa muitíssimo a desejar... E aí eu até repenso aquela casinha no meio do mato, sem luz, sem telefone, sem internet...

1 Da música Pequeña Serenata Diurna, de Silvio Rodríguez.
2 Do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
3 Da música Comida, dos Titãs.

Meus olhos verão o paraíso

Simon Friedland, 1930

Nossos olhos vão ver o paraíso, sim, mas, claro, serão olhos apodrecidos.
Quem foi que disse que não vamos ressuscitar? O Bush?
Coragem, tudo é absurdo, a música é invisível.
Depois da morte, serei o meu mais profundo desejo sem as imperfeições da carne.
Fernando José Karl

O senhor Artaud

Henry B. Goodwin, 1910
Brinca às vezes com ela o senhor Artaud – 51 anos –, com a que mora na casa da frente e entra no seu quintal. Tem 18 anos e se chama Laura. Se chega um pouco mais cedo, o senhor Artaud manda ao criado que lhe traga a tina com água morna; quer lavar-se, observar atentamente essa menina que acaba de penetrar surdamente pela porta de seu quarto de dormir e, agora, abandona a cabeça no ombro dele. E, malgrado a diferença dos dois, o almoço foi sereno com truta e salada. O senhor Artaud devora, com alguma pausa é certo, os lábios da menina, a língua, a coxa. Para o fim do almoço, o senhor Artaud relaxa um pouco a gravata do espírito, expande-se, cita algumas aventuras amorosas de outros. Laura, para excitá-lo, fica ainda mais nua (se é que isso seja possível) e pede-lhe que chupe seus flancos como se chupa uma laranja.

Fernando José Karl


A Novembrada em vídeo


Vale a pena conferir o trabalho de conclusão do curso de jornalismo da colega Ana Carla Pimenta. Trata-se de um documentário em vídeo sobre os 30 anos da Novembrada. A apresentação será nesta segunda, 6 de julho, às 20 horas, no Auditório do Palácio Cruz e Sousa.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Na greve, fique em casa!

Elaine Tavares

Quando o capitalismo começou era assim. Os ricos montavam fábricas e os trabalhadores se amontoavam em volta delas com suas choças, as quais só serviam para dormir,uma vez que eles ficavam mais de 18 horas no trabalho, inclusive suas mulheres e filhos. Depois, com o passar do tempo e o crescimento das cidades, os lugares onde o comércio vicejava passaram a ser reconhecidos como zonas nobres e uma nesga de terra nestas áreas encareceu demais.
É por isso que nas grandes cidades os trabalhadores, no mais das vezes, moram sempre longe de seus locais de trabalho. As regiões nobres se enchem de comércio e prédios de primeira classe e os pobres vão sendo afastados para o interior, os bairros, as encostas dos morros e, até, para municípios vizinhos. Em Florianópolis, por exemplo, um aluguel perto da universidade federal, zona nobre, não é coisa para trabalhador. No centro, nem pensar. Bairros como o Estreito, Coqueiros e Costeira, que ficam bem próximos do centro, também são caros.
Não é à toa que o transporte coletivo seja tão necessário. Ele serve para levar e trazer os trabalhadores que se deslocam de grandes distâncias para exercer seu ofício. Em Florianópolis, são mais de 200 mil pessoas nos ônibus todos os dias. Portanto, o transporte coletivo deveria ser responsabilidade dos patrões, dos que sugam a mais-valia daqueles que vendem sua força de trabalho. São os patrões que deveriam se estressar no caso de uma greve de ônibus, como a que vivemos agora na capital. Mas, em vez de vermos os magnatas se desesperando, o que a gente vê? Trabalhadores brigando uns com os outros pelo lugar numa van. Gente xingando os grevistas - trabalhadores como eles - porque estão lutando por vida digna.
O caos entre os usuários do transporte se instala, as ruas ficam cheias de gente que anda quilômetros para chegar no local de trabalho, que se desespera. Enquanto isso, nas mansões, nas casas chiques, ninguém sequer sabe o que acontece. Os patrões e seus agregados seguem com suas vidas mansas sem nem se importar. Os donos dos ônibus recusam aumentos pífios aos trabalhadores e ameaçam com aumentos na passagem. A prefeitura se dispõe a encher as burras dos empresários, sempre mais e mais, sem se decidir a encampar o transporte público como coisa pública de fato. E assim vamos nós até a próxima greve.
Penso que o melhor seria todo mundo ficar em casa. Descansando, lendo, fazendo tricô, comendo pinhão. Os trabalhadores deveriam dar seu apoio aos que estão lutando, fazendo os que lhes sugam o sangue diariamente ver que eles também são importantes no processo de produção. Ficar em casa, deixar a rua vazia, o comércio parado, as fábricas e as repartições vazias. Aí os jornalistas de aluguel fariam suas matérias alarmistas sobre como "a economia parou" e os patrões tremeriam diante da queda dos lucros e pressionariam os colegas donos de empresa de ônibus a ceder. Ninguém mais do que os empresários defendem o direito de ir e vir dos trabalhadores, não é mesmo? Nem que seja só para o eterno girar na mó da escravidão...
Estas greves, sempre a me ensinar...

Sobre o golpe de Estado em Honduras

O coletivo da Pobres e Nojentas repudia veementemente o golpe de Estado em Honduras e se solidariza com o povo hondurenho na luta por liberdade, dignidade e soberania.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Para entender o golpe em Honduras

Elaine Tavares
De repente, um pequeno país da América Central, cuja capital poucos conseguem pronunciar o nome, Tegucigalpa, virou notícia mundial. Uma velha e conhecida história ali se repetia, quando mais ninguém acreditava que isso pudesse ser possível. Um golpe de estado contra um presidente que não é nenhum revolucionário de esquerda, pelo contrário, é um bem comportado político do partido liberal. O motivo do golpe é pueril: a decisão do presidente de fazer uma consulta popular sobre a possibilidade de uma Constituinte. Em Honduras, ouvir o povo é considerado um ato de lesa pátria. Nada poderia ser mais anacrônico nestes tempos de particpação protagônica das gentes.
A história
Honduras é um pequeno país da América Central cuja história é muito peculiar. Primeiro, porque foi o berço de uma das mais incríveis civilizações desta parte do mundo: os maias. E segundo, porque durante as guerras de independência que tomaram conta da américa espanhola, foi ali que se criou a República Federal das Províncias Unidas da América Central, um ensaio da pátria grande, tão sonhada por Bolívar. Os maias foram dizimados e a proposta de federação não resistiu ao sonhos de grandeza de alguns e, em 1838, a região da América Central também balcanizou. Honduras virou um estado independente e acabou entrando no diapasão das demais repúblicas da região: dominada por caudilhos e fiel serviçal das grandes potências da época, tais como a Inglaterra, a Alemanha e a nascente nação dos Estados Unidos.
As ligações perigosas
Como era comum naqueles dias, a elite governante se digladiava entre liberais e conservadores. Com o fim da idéia de federação e a morte do liberal Francisco Morazón, considerado o mártir de Tegucigalpa, que morreu em 1842 ainda lutando pela unificação da América Central, os conservadores assumiram o comando e o país virou prisioneiros da dívida externa, conforme conta o historiador James Cockcroft, no livro América Latina e Estados Unidos. Os liberais só voltaram ao poder no final do século XIX, mas já totalmente catequisados para viverem de maneira dependente dos países centrais. No início dos século XX chegaram as bananeiras estadunidenses e com elas o processo de super-exploração. A United Fruit Company, a Standart Fruit e a Zemurray´s Cuyamel Fruit passaram a comandar os destinos das gentes. E quando estas tentaram se rebelar, foi a marinha estadunidense quem desembarcou no país para aplastar as mobilizações. Honduras virou, desde então, um país ocupado. Os camponeses trabalhavam nas piores condições e as bananeiras ditavam as leis, financiando os dois partidos políticos locais.Nos anos 30, quando uma grande depressão agitou o país, o governante de plantão, General Carías, submeteu o país, com a ajuda armada estadunidnese, a 16 anos de lei marcial. E, como é comum, quando ficou obsoleto, foi retirado do poder por um golpe.
Em 1950, depois da segunda guerra, as bananeiras exigiram mudanças e o Banco Mundial foi chamado para promover a “modernização” de Honduras. Gigantesgas greves de trabalhadores – como a dos plantadores de banana que parou o país por 69 dias - e de estudantes foram aplastadas em nome do desenvolvimento. E tudo o que eles queriam era o direito de ter um sindicato. Havia eleições mas, na verdade, com uma elite claudicante eram os militares quem davam as cartas e foram eles, apavorados com os avanços dos trabalhadores, que assinaram um acordo com os Estados Unidos para que este país pudesse ter bases militares no território hondurenho.
O medo de mais revoltas populares fez com que o governo realizasse uma espécie de reforma agrária nos anos 60 e 70 que acabou freando as mobilizações no campo, embora o benefício não tenha chegado a um décimo dos camponeses. Ao longo dos anos 70 os escândalos envolvendo generais no governo e as bananeiras se sucederam, causando mais mobilização nas cidades e nos campos, onde ostrabalhadores já se organizavam de modo mais sistemático. Mas, os anos 80 trarão um nova ocupação estadunidense que acabou subordinando a vida das gentes outra vez.

Os sandinistas e os EUA
Os anos 80 são tempos de guerra fria. Os Estados Unidos insistem na luta contra Cuba e também contra a Nicarágua que busca sua autonomia através da revolução sandinista. E, assim, com o mesmo velho discurso de combater o comunismo, Jimmy Carter manda para Honduras os seus “boinas verdes”, para ajudar na defesa das fronteiras, uma vez que o país faz limite com a Nicarágua. Além disso, os EUA abocanham mais de três milhões de dólares pela venda de armas e alugel de helicópteros. Na verdade, lucram e ainda usam o exército hondurenho para realizar numerosas matanças de refugiados salvadorenhos e nicaraguenses. É ali, em Honduras, que, com o apoio da CIA, se leva a cabo o treinamento dos contras que, por anos, assolaram a revolução sandinista e o próprio governo revolucionário. Era o tempo em que um batalhão especial liderado por um general hondurenho anti-comunista, promoveu massacres contra lideranças da esquerda de toda a região. E assim, durante toda a década, apesar dos escândalos políticos e mudanças de mando, a “ajuda” estadunidense aos generias de plantão sempre se manteve impávida com milhões de dólares sendo investidos nos acampamentos dos contras, que somavam mais de 15 mil soldados.
Nos anos 90, a situação em Honduras era tão crítica que até a conservadora igreja católica passou a apoiar os militantes dos direitos humanos que denunciavam estar o país a beira de uma guerra. A derrota dos sandinistas na Nicarágua refreou os ânimos, mas ainda assim, seguiram as denúncias de assassinatos e violações. No final da década, os governos neoliberais já haviam destruido as cooperativas de trabalhadores e devolvido terras às companhias estadunidenses. Nada mudava no país.

Zelaya
Manuel Zelaya foi eleito presidente em 2005, pelo Partido Liberal, mas esteve em cargos importantes durantes os últimos governos. Era, portanto, um homem do sistema. Seus problemas com os Estados Unidos começaram em 2006, quando decidiu reduzir o custo do petróleo, passando a discutir com Hugo Chávez, da Venezuela, a possibilidade de negócios conjuntos, o que acabou culminando, em janeiro de 2008, com a entrada de Honduras na órbita da Petrocaribe, um acordo de cooperação energética que busca resolver as assimetrias no acesso aos recursos energéticos. Este acordo incluiu Honduras na lógica da ALBA, a Alternativa Bolivariana para as Américas, projeto de Chávez em contraposição à ALCA, que tentava se impor a partir dos Estados Unidos. A proposta de Chávez foi a de vender o petróleo a Honduras, com pagamento de apenas 50%, sendo a outra metade paga em 25 anos, com um juro pífio, permitindo assim que Honduras investisse em áreas sociais. O plano, apesar de bom para o país, foi duramente criticado pela classe política. E os Estados Unidos perderam um parceiro de TLC (os mal fadados acordos de livre comércio), o que provocou tremendo mal estar em Washington. Assim, quando o presidente Zelaya decidiu fazer um plebiscito, consultando a população sobre a possibilidade de uma Assembléia Nacional Constituinte, e não apenas de uma mudança para um novo mandato como dizem alguns veículos de informação, o mundo veio abaixo. Entre os direitistas de plantão e amigos da política estadunidense, isso era influência de Chávez. O próprio partido Liberal reacinou contra a medida, considerada “progressita” demais. Afinal, uma nova Constituinte colocaria o país num rumo bastante diferente do que vinha sendo trilhado nas últimas décadas. Mesmo assim o presidente levou adiante a proposta de ouvir a população e acabou exonerando o chefe do Estado Maior, general Romeo Vásquez Velásquez, quando este se recusou a distribuir as cédulas para a votação. A Corte Suprema votou contra a consulta popular e exigiu que o presidente reconduzisse o general ao seu posto, o que foi negado. Por conta disso, no dia da votação, domingo, dia 28, os militares prenderam Zelaya, o sequestraram e o levaram para Costa Rica, coincidentemente seguindo os mesmos trâmites do golpe perpetrado contra Chávez em 2001. O Congresso hondurenho chegou a discutir até a sanidade mental do presidente e, no dia do golpe, se prestou a ler uma fictícia carta de renúncia, imediatamente desmentida pelo próprio presidente desterrado. Ainda assim, o Congresso decidiu instituir o presidente da casa, Roberto Micheletti, como presidente da nação. Este, nega que esteja assumindo num momento de golpe. “Foi perfeitamente legal a ação do Congresso”, dizia, e, enquanto isso, mandava suspender os sinais de televisão e os telefones.

Reação Popular
Agora estão jogados os dados. O presidente Zelaya disse que volta a Honduras nesta quinta-feira e vai acompanhado de presidentes de nações livres e amigas, tais como Equador e Argentina. O mundo inteiro repudiou o golpe e nenhum país reconheceu o governo golpista. A população deflagrou greve geral no país e, aos poucos, as grandes cidades estão parando. A proposta de Zelaya é reassumir e terminar o seu mandato. Não se sabe se ele vai insistir na consulta popular para uma nova Constituição, tudo vai depender da correlação de forças. Se a sua volta se der a partir da mobilização popular, haverá condições objetivas de apresentar esta proposta aos hondurenhos, além de purgar toda a camarilha que buscou reavivar um passado que as gentes de Honduras não querem mais. Há rumores de que políticos da direita estejam alinhavando um acordo, permitindo a volta do presidente, mas exigindo que ninguém seja punido. Se assim for, a volta será derrota.
O cenário mais provável é que, configurado o apoio popular e também o apoio da comunidade internacional, o presidente Zelaya coloque para correr os golpistas e inaugure um novo tempo em Honduras. Caso seja assim, enfraquece o domínio dos Estados Unidos na região e cresce o fortalecimento da Aliança Bolivariana dos Povos de Nuestra América.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Sobre a situação em Honduras

AJUDEM A CORTAR O CERCO MEDIÁTICO.
VIVA HONDURAS
VIVA MORAZÁN
VIVA JACOBO ARBENZ

http://www.radioglobohonduras.com/
http://www.radiomundial.com.ve/yvke/
http://www.telesurtv.net

Casa de água, 25 anos de poesia de Fernando Karl

A editora Letradágua está lançando Casa de água, uma edição comemorativa dos 25 anos de produção poética do escritor catarinense Fernando José Karl, autor do blog Nautikkon e colaborador da revista Pobres & Nojentas.
Nessa antologia também foram incluídos 30 desenhos de sua autoria.
Eis os títulos que compõem o Casa de água:

1. Tema para romance
2. No verão amadurecem os chapéus
3. Desenhos mínimos de rios
4. Diário estrangeiro
5. Travesseiro de pedra
6. Brisa em Bizâncio
7. Se eu mesmo fosse o inverno sombrio.

Quem quiser adquirir o livro pode entrar em contato com o Antonio, dono do sofisticado Sebo Dom Quixote, na cidade de São Bento do Sul/SC, e solicitar um exemplar a ele através do contato@sebodomquixote.com.br ou do telefone: (47) 3633-5365.

Detalhe: Casa de água só pode ser encontrado no Sebo Dom Quixote. O preço do exemplar é de R$ 30,00 + o valor do impresso registrado (que custa mais ou menos R$ 4,00). Isso significa que, por apenas R$ 35,00, você pode levar para casa 25 anos de dedicação ininterrupta à arte de escrever.

Protesto de estudantes em Itajaí

Durante a passagem do presidente Lula por Itajaí, litoral norte catarinense, no dia 26 de junho, estudantes da Univali se juntaram à manifestação dos trabalhadores da Previdência Social. Mais um protesto contra a decisão do STF em relação ao fim da obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão de jornalista. Foto de Marcela Cornelli.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Queremos o nosso diploma de volta!

Faixa afixada na entrada do curso de Jornalismo da UFSC

A sociedade precisa entender o que os ministros do STF não entenderam: o diploma de Jornalista NÃO impede a livre manifestação do pensamento e a liberdade de expressão.

O QUE DIZ A LEI?

1 - A Constituição Federal garante a todos os brasileiros, sem quaisquer impedimentos, o direito à livre manifestação do pensamento e à liberdade de expressão, independentemente de censura ou licença. Isto está no artigo 5º da lei maior do país. São direitos que não podem ser impedidos por qualquer barreira de ordem social, econômica, religiosa, política, profissional ou cultural. É O DIREITO DE PENSAR E DE DIZER O QUE QUER QUE SEJA.
2 - Mas a questão que tem a ver com a profissão de jornalista trata da liberdade do exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, ou, simplesmente, liberdade de profissão. Não se pode confundir liberdade de manifestação do pensamento ou de expressão com liberdade de profissão. Quanto a esta, a Constituição assegurou o seu livre exercício, desde que atendidas as qualificações profissionais estabelecidas em lei. Isto também está no artigo 5º. A Constituição não deixa dúvidas, portanto, de que a lei ordinária pode estabelecer as qualificações profissionais necessárias para o livre exercício de determinada profissão.
3 - O Decreto-Lei n. 972/69, que trata da nossa profissão e prevê o diploma, NÃO impede a liberdade de trabalho, liberdade de expressão e manifestação de pensamento. A legislação até permite a figura do colaborador, que não é necessariamente jornalista, mas pode escrever no jornal e na revista e falar no rádio e na televisão para dar opiniões sobre qualquer assunto. Basta ligar a TV ou abrir os jornais e revistas para observar as colunas e os artigos de opinião escritos por médicos, professores, advogados, sindicalistas, lideranças comunitárias. ISSO SEMPRE ACONTECEU. MAS ISSO NÃO É JORNALISMO!

O QUE É O JORNALISMO?

O jornalista diplomado também pode dar opiniões no jornal, na revista, no rádio e na TV. As charges, por exemplo, em que aparecem temas e pessoas públicas, também são formas de opinião e fazem parte do jornalismo. Mas o jornalismo é muito mais do que isso!

1 – Para falar sobre os fatos que acontecem em todos os lugares, o jornalista não pode se limitar a dar uma opinião, como fazer os colaboradores que SEMPRE puderam escrever e falar no rádio e na televisão. O jornalista precisa ir até o local onde aconteceu o fato, ouvir as pessoas envolvidas nele, ler sobre o assunto para melhor compreendê-lo e, aí sim, escrever o texto para o jornal e mostrar as imagens na televisão, falando sobre o significado delas a partir do que viu, ouviu e pesquisou.

2 – É claro que um advogado também precisa ouvir as partes. É claro que um médico também precisa fazer pesquisa. Mas o resultado desse trabalho é comunicado a outros advogados e outros médicos. Isso quer dizer que a produção desse conhecimento NÃO ATINGE a população como um todo. Ela geralmente fica restrita ao meio onde é produzida. Já o trabalho do jornalista busca deixar informado o maior número possível de pessoas.

3 – A tecnologia, como a internet, os blogs, permite que qualquer pessoa, jornalista ou não, tendo acesso os meios necessários, produza fotos, colha informações e dê opiniões. Mas o jornalista tem o papel de fazer isso de forma interpretada e crítica. Isso quer dizer que ele busca, no fato individual, o que esse fato significa para quem o gerou e para quem se envolveu nele. Essas são as FONTES do jornalista, as pessoas. Mais do que isso, porém, ele busca saber o que aquele fato individual significa no processo histórico. O jornalista, depois de ir até o lugar onde o fato aconteceu, ouvir as pessoas e narrar o que viu, ouviu e leu, faz a ponte entre o lugar e o mundo, entre um fato isolado e o que ele representa na história. Com esse conhecimento, as pessoas podem compreender o mundo, tomar decisões, mudar o que é necessário.

4 – Tudo o que você vê, ouve e lê a respeito de outros lugares do mundo, na maior parte das vezes, é produzido por um jornalista, que foi até lá e trouxe a informação para você. Esse profissional é um trabalhador, e, como tal, está submetido aos interesses dos patrões. Está submetido à luta de classes. Sem o diploma, essa luta, que também travamos todos os dias, ficará ainda mais difícil, porque agora está sem regulamentação. Por isso, queremos nosso diploma de volta, e vamos lutar por ele.

CAI O DIPLOMA (POR ENQUANTO). MAS NÃO O JORNALISTA!

PRECISAMOS DE VOCÊ NESTA LUTA!

SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SANTA CATARINA

Domingo, 28 de Junho de 2009

Defesa da profissão na capa

Vale a pena conferir a iniciativa dos jornalistas do Jornal da Manhã, de Criciúma, que marcaram posição na capa do jornal de 18 de junho contra a decisão do STF. Ver em

Jornalistas de SC vão lutar pelo diploma

Depois de Assembléia Geral no dia 24 de junho, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina definiu o rumo da luta a partir do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Considerou-se o seguinte contexto:

1 A votação do STF definiu sobre: o fim da exigência do diploma para o exercício da profissão. Com isso também cai a necessidade de registro e acaba com boa parte da regulamentação da profissão;

2 Os argumentos do STF alegando que a exigência do diploma barra a liberdade de expressão é um equívoco. A liberdade de expressão está relacionada ao direito que qualquer um tem de escrever um texto, fazer um blog, um comentário, etc... emitindo uma opinião. Já o jornalismo configura uma profissão que exige um conhecimento específico;

3 Entre os juristas, incluindo a assessoria jurídica do Sindicato, há uma dúvida sobre se o STF entende que acabou com toda a regulamentação, ou se seguem valendo os demais artigos da lei que atualmente regulamentam a profissão;

4 Por conta disso há um certo vazio de compreensão até que saia em definitivo o Acórdão do STF, com o voto definitivo e por escrito;

5 O Acórdão demora até 60 dias para sair e até lá muitas são as lutas que se podem travar para recuperar o que foi perdido;

6 Em visita à Secretaria Regional do Trabalho (SRTE) fomos informados de que, até que saia o Acórdão com a decisão oficial do STF, a secretaria não fará o registro de nenhum jornalista que não apresente o diploma.

Discutido este cenário a AG decidiu pelas seguintes ações:

. Iniciar uma luta tática pela retomada da exigência do diploma estabelecendo isso como prioridade no momento

. Realizar ação entre os deputados estaduais e federais para que se manifestem pela exigência do diploma e pela necessidade da construção de uma Emenda Constitucional que garanta isso;

. Realizar ação junto aos vereadores das cidades para que também se manifestem;

. Atuar junto aos movimentos sociais, sindicatos e instituições para que apóiem a luta pela exigência do diploma;

. Atuar junto aos CAs e UCE para que os estudantes possam ser informados de tudo o que acontece e possam se mobilizar;

. Fazer faixas para afixar nas universidades onde há cursos de jornalismo, em defesa da exigência do diploma;

. Definir em documentos o que é liberdade de expressão e o que é jornalismo, estabelecendo as diferenças.

Mobilização:

. O coordenador do curso de Jornalismo da Estácio de Sá, Paulo Scarduelli, assumiu o compromisso de afixar faixas e discutir a questão em todas as bancas de TCC que se realizam entre os dias 29 de junho e 6 de julho, sugerindo que o mesmo seja proposto aos demais cursos;

. Definiu-se que a aula inaugural do Curso da Estácio de Sá, no semestre que começa no dia 27 de julho, terá o tema diploma como discussão;

. Serão pensadas pela direção do Sindicato algumas ações de rua para expressar a luta dos jornalistas;

. Levar para a reunião do dia 17, em Brasília, a decisão de Santa Catarina que é a de priorizar a luta pela retomada da exigência do diploma ao exercício da profissão. Os trabalhadores entendem que, neste momento, outras divergências que possamos ter com relação a outros pontos da regulamentação devem ficar em suspenso. A necessidade agora é a de buscar uma união tática para reverter a decisão do STF;

. Também foi aprovado levar a proposta de que a FENAJ assuma o protagonismo nesta luta, impedindo assim que deputados ou senadores oportunistas se aproveitem do momento para inventar leis que não sejam as pretendidas pela categoria.

“Uma parte de mim é multidão, outra parte estranheza e solidão ...”*

Li Travassos, de Florianópolis

Neste dia 25 de junho de 2009, morreu, como você já deve estar cansado/a de saber, o cantor, compositor, dançarino e ícone da música pop, Michael Jackson. Pretendendo retomar a carreira depois de uma longa pausa, gerada por uma série de escândalos e situações não esclarecidas, Michael havia informado que iniciaria a que seria sua última turnê . Contudo, os cinquenta shows que deveriam marcar os seus 50 anos de vida não aconteceram. Overdose de analgésicos a base de morfina? Suicídio? “Saio da vida para entrar na história”? Ainda não sabemos, mas podemos desconfiar.
Sem pieguices , creio que esta morte é um clássico exemplo do 'morreu, descansou'. Com uma vida que foi um filme de terror classe B, Michael teve tudo que o dinheiro pode comprar , mas jamais foi feliz de fato . Anos atrás , La Toya Jackson , irmã de Michael, provocou um imenso escândalo na mídia , ao escrever sobre sua infância e família , e dizer que o pai levava os 'Jackson Five' com mão de ferro , além de acusá-lo de pedofilia. Michael teria então negado a pedofilia do pai ( até Freud o fez, quem não haveria então de?). Mas as acusações de pedofilia sobre ele mesmo parecem desmenti-lo.
Mas aqui vamos dar uma parada , para diferenciar quem tem relações sexuais com crianças , o que constitui, quero crer que por toda a parte , crime de pedofilia, e quem é realmente pedófilo. A meu ver , a maioria esmagadora das pessoas que têm relações com crianças e adolescentes não é pedófilo, mas apenas um psicopata . Quer se dar bem , e vai aproveitar qualquer oportunidade de abusar sexualmente de quem quer que seja. Não precisa ser criança , serve uma mulher indefesa , um rapaz mais fraco , qualquer um que possa ser dominado, numa conduta de animal irracional , de seres sem lei ou moral , de quem gosta de ' levar vantagem em tudo '. Este me parece o caso daquele médico brasileiro , lembra? Um que só atendia adolescentes , os anestesiava, tinha relações com eles desacordados , e ainda por cima filmava tudo e vendia as fitas ... Já o pedófilo, muito mais raro , é alguém seriamente doente , que não cresceu psicologicamente e não desenvolveu sua sexualidade de forma normal .
Em algum dos exaustivos momentos de discussão sobre Michael na mídia nestes dias 25 e 26, aparece uma entrevista onde ele é questionado sobre ser virgem . Bueno, eu não duvido nada de que tenha morrido virgem . E os filhos ? Inseminação artificial , todos os três . E o casamento com Lisa Marie Presley? Por isso mesmo não deve ter dado certo . O homem pedófilo dificilmente consegue ter uma relação sexual completa , seja com alguém do sexo oposto , seja com alguém do mesmo sexo . O que quer é carinho , aconchego , talvez um pouco de contato mais sensual , mas de forma absolutamente infantil . Ao que se sabe, não raro o pedófilo foi vítima de abuso sexual . E parece que ficou preso lá , naquela idade , numa espécie de Terra do Nunca . Talvez porque o abuso sexual , por incrível que pareça, tenha sido o único tipo de atenção que recebeu (no caso , do pai ), a única maneira com que conseguia se sentir importante para aquela pessoa que dele abusou. Se nem todo pedófilo foi vítima de abuso , então deve haver algum outro motivo para a pessoa ficar presa lá atrás . Verdade que , mesmo sendo vítimas , os pedófilos podem acabar vitimando uma série de crianças . E que , talvez , a única solução seria afastá-los do convívio social . Mas não se pode imaginar que um pedófilo é realmente uma pessoa má. É apenas uma pessoa doente , que pode vir a fazer mal para os outros por conta disso.
Tendo começado a trabalhar com apenas cinco anos , Michael foi a prova mais absoluta de que o trabalho infantil , mesmo na arte , mesmo na mídia , mesmo que leve a sucesso e fortuna , é, na maioria esmagadora dos casos , um gerador de problemas pessoais , por vezes insolúveis . ' Lá vem ela de novo ', dirão os que já leram, neste mesmo espaço , meus dois outros textos sobre trabalho infantil , um deles, inclusive , sobre o trabalho infantil na mídia . Sim , lá vou eu de novo , quem manda a vida me dar munição ?
Ás vezes penso que deve ter alguém por aí louco para me perguntar : 'E se o pai do Mozart tivesse dito para ele ir brincar no sol , e parar de perder sua infância compondo aquelas musiquinhas, hein , hein ?'. Então , respondo eu , seria muitíssimo bom para ele , e uma pena para mim , que amo a música de Mozart de paixão , especialmente o Réquiem , que ele compôs para seu pai extremamente tirano , e este pai aí da sua suposição , preocupado com o sol , e tal , não me parece motivador de tal expurgo artístico . O que consola é que , posto que o pobre Wolfgang Amadeus morreu na miséria , deduz-se que o Mozart pai , que morreu antes ainda , não tenha ganhado uma fortuna às suas custas , o que não se pode dizer do pai de Michael Jackson. Mas , em resumo , é esta a questão : trabalho infantil , mesmo que seja com arte , é bom para quem dele usufrui, é ruim para quem nele atua.
E sabe o que lavou minha alma ? Um destes programas que hoje ( dia 26) não parou de falar da morte de Michael Jackson foi o ' Estúdio i', da Globo News, apresentado por Maria Beltrão. Que tinha como um dos convidados o maravilhoso ator Selton Mello. Que começou, também , a trabalhar quando criança . E Maria Beltrão me solta uma pérola mais ou menos assim ( depois de cenas de Michael dizendo o quanto trabalhar na infância era terrível ): Ficam dizendo que não é bom começar a trabalhar desde pequeno , mas eu não acho, e temos aqui um bom exemplo de que começar a trabalhar cedo não faz mal nenhum , não é Selton? Ao que esta criatura iluminada responde, daquele seu jeito característico , falando molinho, mais ou menos assim : Olha , eu comecei a trabalhar cedo porque eu quis, meus pais não me obrigaram a nada , só me apoiaram, mas eu não acho legal e não recomendo. Há! Mais para a frente , quando se discutia o vício de Michael por analgésicos , Selton falou de ter sido viciado em remédios para emagrecer . Vício que acabou sendo conseqüência do fato de Selton Mello não seguir , fisicamente falando, o padrão de beleza imposto pela mídia (a meu ver ele se parece, em vários sentidos , com outro ator maravilhoso e também fora deste padrão , que é Cássio Gabus Mendes...). Mas enfim , será que se Selton tivesse começado mais tarde teria passado por isso ? Fora que não acredito que seja apenas esta sua questão com o trabalho precoce ...
Ainda no programa ' Estúdio i', contudo , tive o imenso desprazer de ouvir um médico psiquiatra , que se diz psicanalista , o senhor (de 68 anos ) Luiz Alberto Py, começar a dizer que , hoje , procura ver o melhor lado das pessoas , e investe por ali , e tal , então afirma ( depois de uma cena tristíssima de entrevista em que Michael fala da tirania do pai , que o chamava de macaco , que dizia que ele era muito feio , e que , quando tinha espinhas , lavava o rosto no escuro para não se ver no espelho , etc.), que o pai de Michael era o responsável pelo seu sucesso , e que ele tinha que ver o lado bom do pai , ao invés de acusá-lo ' por todas as suas maluquices '. Devo confessar que meu queixo caiu. Já estranhei quando este senhor , dizendo-se psicanalista , veio com esta conversa de ' ver o lado melhor das pessoas ' ( depois descobri também que ele responde perguntas de pessoas com problemas pela internet – mais uma voltinha de Freud no túmulo , mais duas de Lacan...). Bueno, como eu ia dizendo, ao afirmar que é importante vermos o melhor lado das pessoas , ele não estava se referindo a Michael ( que seria, em última instância , o ' paciente ' em questão , já que foi chamado a este programa para falar dele), mas sim , do seu pobre /pai-super/ bem /intencionado-abusador/sexual-espancador-tirano-destruidor/de/ auto /estima-aproveitador/do/ trabalho /dos/filhos-etc./etc. Michael, 'o cheio de maluquices ', deveria ser grato ao papaizinho por ter sido a alavanca de seu sucesso . Mas que sucesso , pelo amor de Deus ?
Como alguém (Maria Beltrão, Luiz Alberto Py, e tantos outros ), pode desassociar tão seriamente sucesso profissional de sucesso pessoal ? Como chamar de sucesso uma carreira que termina com um zilhão de dívidas , um rosto absolutamente deformado, difamação pública por pedofilia, vício em drogas , solidão absoluta ??? Eu adoro as músicas de Michael, a dança de Michael, os clipes de Michael, mas quando ele começou a ficar branco eu comecei a me preocupar seriamente, quando ele foi acusado de pedofilia pela primeira vez eu quase chorei, e quando ele apareceu com o rosto totalmente deformado, sem nariz , quase uma caveira , eu reagi como a mocinha do clip
Thriller, e quase gritei de terror . Daí para frente , mal suportava ver seu rosto , assim como as pessoas reagiam ao ' Homem elefante ', lembra do filme ? Pois então , hoje descobri que uma das excentricidades de Michael foi ter comprado os restos mortais deste homem , que realmente existiu, e cuja história deu origem ao filme ...
Michael ouviu seu pai muito obedientemente e passou a sentir-se um monstro . Com toda a fortuna que amealhou, foi se submetendo a uma cirurgia e tratamento depois do outro , até conseguir uma aparência que deixaria qualquer mãe de miss – loira e racista – feliz . Mas não conseguiu ser amado como queria. E continuou. Continuou até ficar deformado. Mais um sintoma do sério comprometimento psicológico desta criatura . Há pessoas (acredite) que sofrem de uma doença que as leva a procurar a deformação . Com o objetivo de conquistar a deformação física , procuram um médico e pedem que lhes corte uma perna sadia , ou qualquer coisa absurda do tipo . Claro que , nestes casos , os médicos se negam a fazê-lo e encaminham peremptoriamente o sujeito para tratamento psicológico . Por que isto não acontece com os cirurgiões plásticos ? Desculpem, melhor perguntar por que o cirurgião plástico de Michael não deu um basta antes de seu nariz ficar tão arrebitado que ele poderia morrer afogado na chuva ? Que sandice é esta que leva alguém a fazer qualquer coisa , até mesmo deformar outro ser humano , apenas para ganhar mais e mais dinheiro ?
Eu não conheço suficientemente esta doença psíquica que leva a pessoa a buscar a deformação , não sei sequer seu nome . Descobri que ela existia assistindo a um destes mil seriados americanos sobre hospitais e médicos . Não sei o que motiva a pessoa a buscar a deformação , mas parece que é uma percepção distorcida de si mesmo , pior ainda do que na anorexia , que faz com que pense que , se extirpar aquela parte do corpo , vai ficar melhor ( mais saudável , mais bonita ???). No caso de Michael, posso arriscar dizer que o que o motivou foi o desejo de se manter na situação em que o pai 'o amava'. Ou seja, se o pai o xingava de feio , macaco , etc., mas fazia sexo com ele assim mesmo , então ele , após tentar obter o amor do pai ( através de outras pessoas , claro ) ficando bonito para os padrões impostos socialmente , e não conseguir nada com isso , passou a destruir sua imagem . Quem sabe 'voltando a ser monstro ' o amor viria?
Arthur Janov, psicoterapeuta americano criador da terapia do ' Grito primal', afirma que 'A esperança é o cerne da neurose '. Explico: quando crianças , não nos sentimos suficientemente amados , então fazemos tudo que nos é possível para ver se conquistamos o amor do papai ou da mamãe , o que não acontece, claro , pois a impossibilidade de amar está neles, não em nós . Crescemos buscando o amor de outras pessoas para substituir o amor de papai e/ ou mamãe , e para isso fazendo o que for possível , mudando o que for necessário . Ou seja: enquanto não perdermos a esperança de sermos amados por nosso pais , não poderemos ser quem realmente somos nem vivermos nossa vida com um objetivo maior .
A economista Flávia Oliveira , que é linda , inteligente , e negra como Michael, diz que , na infância , sofria muito na escola porque quando alguma menina branca queria ofendê-la, chamava-a logo de ' macaca '. Iniciou-se então , neste longo ' Estúdio i', uma discussão sobre os efeitos do racismo sobre a auto-estima, com um pouco de ajuda de Sandra de Sá ( loura , como sempre ), e a discussão de que , quando os comentários racistas vem da própria família , como no caso de Michael, é muito pior . Nem assim o senhor Luiz Alberto Py se deu por vencido e continuou afirmando que o pai de Michael era responsável por tudo de bom que havia acontecido a Michael. Concordo, com o detalhe de que acho que nada de bom aconteceu a Michael. E considerando que este médico deve ter mais ou menos a idade do pai de Michael, quero lembrar que o psicoterapeuta precisa oferecer apoio a quem é seu paciente , independentemente de se identificar mais com algum membro da família do sujeito do que com ele mesmo (seja pela idade , seja pelo que for).
Uma fã descreveu Michael, em um dos muitos programas sobre ele , como alguém muito delicado , muito feminino , mas que quando começava a cantar se transformava em uma outra coisa . É isso que percebo, comparando seus clipes a suas entrevistas . O que faz pensar que Michael criou um personagem de si mesmo . O ser verdadeiro poucos conheceram. Se Michael tinha vitiligo , lúpus (e conseqüentes problemas de imunidade ), desvio de septo , e outras mazelas mais , não se pode ter certeza . Mas que tinha sérios problemas psíquicos , que precisava de ajuda , e que esta ajuda não veio , parece óbvio . Nem mesmo seu médico pessoal foi capaz de dizer não para seus pedidos excessivos de drogas para a dor .
Quanto a mim , não chorei nestes dois dias , apesar de ser uma ' manteiga derretida'. Porque , para mim , Michael Jackson já tinha morrido faz tempo . Se fosse chorar , seria por sua vida , não por sua morte . E se pudesse escolher entre a existência deste ser extremamente criativo , que nos deixou um legado indiscutível , e a possibilidade de um certo 'Michael qualquer coisa ' ter sido apenas um menino feliz lá nos EUA, eu juro que escolheria a segunda opção . E me arriscaria a ficar sem a música de Mozart, e sem o fantástico trabalho de Selton Mello, para tentar descobrir se eles não seriam assim geniais , mesmo que tivessem começado muito mais tarde . Porque aproveitar do trabalho do outro , sem levar em conta sua felicidade , é o que já faziam os feitores de escravos , os ' donos ' de minas , os senhores feudais. Não estou propondo deixar de consumir Michael Jackson e Mozart, até porque as criaturas estão mortas, e nada mais lhes afeta . Selton Mello vai continuar fazendo filmes , peças , séries ... e vou continuar assistindo. Mas estou tentando seriamente deixar de consumir trabalho infantil na arte e na mídia . Não é fácil , mas ninguém nunca disse que era ...

* Do poema “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Pássaros-panos ao sol


Míriam Santini de Abreu
Minhas roupas estão na bacia, tristes, esperando o sol para serem lavadas e deixadas ao tépido calor de inverno. Mas nada! Só chuva. Para dar alegria a elas, posto esta foto do jardim de minha tia-avó. Bençãos, conchas, uvas e viva claridade.

Novidades em relação ao acervo do jornal O Estado

Colega Celso Martins informa que o acervo do jornal O Estado está salvo e em local seguro. Veja em http://sambaquinarede2.blogspot.com/

2º Círculo da Palavra discute o papel da fotografia e do repórter fotográfico

O 2º Círculo da Palavra, realizado nesta terça-feira, 23, às 19 horas, no mini-auditório da FECESC em Florianópolis, reuniu cerca de 20 trabalhadores que se propuseram a discutir a atuação do repórter fotográfico e o discurso jornalístico na fotografia.
O debate se deu em torno de temas como as relações de trabalho nas redações, o impacto das novas tecnologias no dia-a-dia da cobertura noticiosa, a ética em relação ao fato e aos entrevistados e a prática da multifunção, em que um mesmo trabalhador ganha apenas um salário e desempenha várias funções dentro do veículo de comunicação.
Esta segunda edição do Círculo da Palavra foi aberta por Ricardo Duarte, repórter fotográfico do jornal Diário Catarinense, Marcelo Bittencourt, repórter fotográfico do jornal Notícias do Dia, e Cláudio Silva da Silva, o Sarará, repórter fotográfico freelancer. Em seguida, o debate com os participantes se estendeu até às 21 horas.
A avaliação da atividade foi bastante positiva até porque, no corre-corre das redações, é cada vez mais difícil refletir sobre o nosso fazer e, neste caso, sobre a importância da fotografia no jornalismo. No final da conversa, cada profissional buscou dar resposta ao seguinte questionamento: o que será da fotografia daqui para diante?
Ficou curioso? Pois o Sindicato fará a publicação, em formato de livreto, do conteúdo do 2◦ Círculo da Palavra. Será o primeiro volume dos “Cadernos de Jornalismo” do SJSC. O livreto também irá incluir o resultado do debate feito em Joinville, com o mesmo tema, no dia 17, na Associação Educacional Luterana Bom Jesus/Ielusc, que também contou com a presença de vários profissionais. Nada melhor do que ver, no mês em que o STF golpeou a nossa profissão, os trabalhadores reunidos para discutir o seu trabalho e se organizar para as lutas que virão.
Ao final do debate, os repórteres fotográficos aprovaram uma Moção de Repúdio contra o estado de abandono do acervo fotográfico do jornal O Estado (confira abaixo).


MOÇÃO DE REPÚDIO

Os repórteres fotográficos reunidos no 2º Círculo da Palavra, realizado no dia 23 de junho de 2009 na FECESC, em Florianópolis, repudiam a falta de responsabilidade em relação em acervo fotográfico do jornal O Estado, que se encontra em estado de abandono. O descaso, tornado público em julho, avilta a preservação da memória dos fatos e da gente catarinenses. A depredação do acervo também expõe o descaso com que é tratado o trabalho de repórteres fotográficos concretizado nas milhares de fotografias que estão agora sob o risco de virar lixo. A recomendação é que o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina busque providências para evitar que se perca esse valioso material fotográfico, incluindo a possibilidade de, se necessário, tornar-se fiel depositário daquele acervo.

Florianópolis, 23 de junho de 2009

O jornalismo e o fogo


Míriam Santini de Abreu

Comemoramos o aniversário de 65 anos de minha mãe (ela, acima, com os três filhos) em uma chácara em Caxias do Sul no domingo passado. No sábado, noite fria, típica da Serra Gaúcha, eu, ela e meu irmão mais novo, o Marcos, mais os amigos dele, estávamos abrigados em um galpão, o fogo crepitando na lareira.
Eu e a mãe espichadas em uma cadeira; os amigos do Marcos jogando canastra, e o Marcos assanhando pinhões direto no fogo. Ele jogava as sementes sobre uma chapa, depois as tirava com uma pá, depositava numa tábua de madeira e abria com um pedaço de lenha.
A certa altura aquilo me hipnotizou. O fogo imemorial, o gesto imemorial de nele preparar o alimento, as vozes dos guris, o calor entorpecente e, lá fora, a Via Láctea riscando o céu na noite estrelada mais linda que já vi. Pensei que poderíamos estar a girar na galáxia, dentro daquele galpão, como se fôssemos filhos errantes de um planetinha de madeira.
Falava ontem, com a jornalista Elaine Tavares, sobre a dificuldade das pessoas para entender a diferença entre liberdade de expressão e jornalismo. Pensei naquele galpão, naqueles gestos singulares: a lareira acesa remetia à descoberta, em tempos primitivos, do poder de vida e de morte do fogo. Os pinhões são frutos de uma árvore, a araucária, cuja utilização ajuda a contar uma história de destruição, de poder e resistência popular, como foi a Guerra do Contestado em Santa Catarina; os objetos para cozinhar o pinhão, todos resultado de trabalho social na maioria das vezes mal-remunerado; e o meu encanto, o encanto da raça diante do fogo, das entrelas, encanto tão entorpecente que eu só movia os músculos para levantar da cadeira e apanhar uns pinhões.
Liberdade de expressão é poder contar isso. Jornalismo é interpretar o que aqueles gestos imemoriais e singulares, num galpão-galáxia, significam na vida de quem estava lá e o que neles há de universal, de porção simbólica e concreta da experiência humana, de repetição e possibilidade de transformação. Interpretação de um fato pelo que nele há de ligação com todos os outros fatos e com a realidade. Este é o nosso fazer, fazer dos jornalistas, a nossa contribuição para o trabalho social.

Acervo de O Estado: perda irreparável

O colega Celso Martins esteve no local onde era a redação do jornal O Estado. É de cortar o coração de todo e qualquer trabalhador, jornalista ou não, que atuou lá. E de que não trabalhou. Veja em:

Cai o diploma, não o jornalista!

Os jornalistas gaúchos ocuparam as ruas em defesa da profissão. Estudantes e profissionais formados. A decisão do STF de extinguir a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão, como disse a jornalista Elaine Tavares, está "criando cuervos"! Veja em:

U-hu!!!

Acervo do jornal O Estado está virando lixo

Vale a pena conferir o vídeo feito por Ozias Alves Jr. sobre a situação do arquivo do jornal O Estado, intitulado Memória de SC perdida na falência do jornal O Estado. Há muito discurso bonito em prol da preservação da memória de e em Santa Catarina, o que torna ainda mais absurdo o que acontece com o acervo de um jornal que tinha tradição por aqui. Veja em:

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Sindicato dos Jornalistas de SC discute papel da fotografia e do repórter fotográfico

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina promove o 2º Círculo da Palavra com o tema “O repórter fotográfico e o discurso jornalístico na fotografia”. O encontro ocorre terça-feira, 23 de junho de 2009, às 19 horas, no mini-auditório da FECESC (Av. Mauro Ramos, 1624).
Serão abordados o papel deste profissional na atualidade, a relação entre o repórter e o repórter-fotográfico na produção da notícia e as condições de trabalho nas empresas jornalísticas. A mesa será formada por:
-Cláudio Silva da Silva - Sarará, repórter fotográfico freelancer
-Marcelo Bittencourt, repórter fotográfico do jornal Notícias do Dia
-Ricardo Duarte, repórter fotográfico do jornal Diário Catarinense
O propósito do Sindicato é recuperar a importância da fotografia no jornalismo, visto que atualmente tanto as condições de trabalho como a incompreensão do que seja o foto jornalismo inviabilizam que este fazer aconteça em toda a sua potencialidade. Discutir teoricamente o tema e compreender esta prática são fundamentais para o futuro da profissão. A partir do debate, o Sindicato fará a publicação, em formato de livreto, do conteúdo do 2◦ Círculo da Palavra. Será o primeiro volume dos “Cadernos de Jornalismo” do SJSC. O I Círculo da Palavra teve como tema a atuação do Grupo RBS em Santa Catarina.
Confira os currículos resumidos dos integrantes da mesa no www.sjsc.org.br

Pinus de Cima da Serra?


Dizem que a região conhecida como Campos de Cima da Serra, no Nordeste gaúcho, logo irá virar Pinus de Cima da Serra, porque campos e araucárias estão desaparecendo e sendo substituídos por vastos plantios de pinus. Mas lá há quem esteja a plantar araucárias e semear berços para as curucacas.

A tecnociência é política

Míriam Santini de Abreu

Leio que o presidente Lula defendeu hoje que a discussão sobre a preservação ambiental não seja tratada de forma “ideológica”. Isso foi durante discurso no lançamento do Plano Agrícola e Pecuário 2009/10. O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, por sua vez, avaliou que sua pasta adota uma postura “técnica” sobre a discussão ambiental, e disse ele que o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, ainda tem um viés “ideológico”. "Eu acho que temos divergências. Seria importante que a gente harmonizasse essas divergências, mas acho que ele (Minc) continua um pouco no viés ideológico e eu procuro discutir a questão no viés técnico e científico", disse Stephanes.
Ora pois... A tecnociência, ao contrário do faz-de-conta da afirmação de Stephanes, não é neutra, porque é política. O pensamento do geógrafo Milton Santos é perfeito para explicar isso, e pode ser conferido em
http://blog.controversia.com.br/2008/08/02/entrevista-milton-santos/

Em certo trecho diz Milton:

A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Para entender esse processo, como qualquer momento da história, há dois elementos fundamentais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política.
Há uma tendência em separar uma coisa da outra. Daí muitas interpretações da história a partir das técnicas. E, por outro lado, interpretações da história a partir da política. Na realidade, nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. As técnicas são oferecidas como um sistema, utilizado através do trabalho e das formas de escolha dos momentos e dos lugares de uso das técnicas, das combinações entre elas. É isso que fez a história.
Chegamos ao fim do século XX e o homem, por intermédio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação. Elas passam a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo sistema técnico.
Só que a globalização não é apenas a existência desse novo sistema de técnicas. Ela é também o resultado dos processos políticos que conhecemos. Com freqüência ouvimos a pergunta: “mas não tem alguma coisa de bom na globalização?” ou “será que é tudo ruim?”. A discussão não é essa. A discussão é: há um conjunto, um sistema de técnicas baseado na ciência, e há uma forma de utilizar esse sistema presidida por essa mula-sem-cabeça chamada mercado global. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas, repito, presididas pelas técnicas da informação, resulta nessa globalização perversa. Isso poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. E quando digo uso político, digo uso econômico e cultural, porque neste fim de século tudo se tornou político; a economia é feita a partir da política, a cultura é base para a política e resulta da política. Esse é o debate central, o único que nos permite ter a esperança de utilizar o sistema técnico contemporâneo a partir de outro paradigma.

Pena não ter sido, o ministro Stephanes, interrogado pelos jornalistas sobre as implicações de sua afirmação. Fazem-se de tolos, os ministros...

No site que indico acima, há outro trecho da entrevista de Milton Santos que também coloca em evidência alguns aspectos do discurso do ministro do STF Gilmar Mendes ao considerar desnecessário o diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista:

Pergunta a Milton: O senhor tem falado em globalitarismo. Poderia nos explicar esse conceito?
Resposta: Eu chamo a globalização de globalitarismo, porque estamos vivendo uma nova fase de totalitarismo. O sistema político utiliza os sistemas técnicos contemporâneos para produzir a atual globalização, conduzindo-nos para formas de relações econômicas implacáveis, que não aceitam discussão, que exigem obediência imediata, sem a qual os atores são expulsos da cena ou permanecem dependentes, como se fossem escravos de novo. Escravos de uma lógica sem a qual o sistema econômico não funciona. Que outra vez, por isso mesmo, acaba sendo um sistema político.
Esse globalitarismo também se manifesta nas próprias idéias que estão atrás de tudo. E, o que é mais grave, atrás da própria produção e difusão das idéias, do ensino e da pesquisa. Todos obedecem, de alguma maneira, aos parâmetros estabelecidos. Se estes não são respeitados, os transgressores são marginalizados, considerados residuais, desnecessários ou não-relevantes. É o chamado pensamento único. Algumas vozes críticas podem se manifestar, uma ou duas pessoas têm permissão para falar o que quiserem, para legitimar o discurso da democracia. Só que a estrutura do processo de produção das idéias se opõe e hostiliza essa produção de idéias autônoma e, por conseguinte, de alternativas.
É uma forma de totalitarismo muito forte, insidiosa, porque se baseia em idéias que aparecem como centrais à própria idéia da democracia – liberdade de opinião, de imprensa, tolerância – utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mundo, do que são os países, os lugares. Eu chamo isso de tirania da informação, que, associada à tirania do dinheiro, resulta no globalitarismo.

Pergunta a Milton: Essa tirania da informação se opõe, portanto, à produção de um conhecimento que poderia gerar uma alternativa distinta do mercado à organização desse meio técnico-político?
Resposta: Creio que sim. Na medida em que o mundo se globaliza, eu apenas posso entendê-lo como um todo. E cada coisa a partir do mundo. Se me retiram a possibilidade de compreender o mundo como ele é, se me bombardeiam todos os dias com informações que não são corretas, estão me tirando a possibilidade de entender não só o mundo como a mim mesmo.
Isso é terrível, porque mata a possibilidade de desenvolvimento de alternativas. Esse mundo globalizado produz uma racionalidade determinante, mas que vai, pouco a pouco, deixando de ser dominante. É uma racionalidade que comanda os grandes negócios, que são cada vez menos numerosos mas cada vez mais abrangentes. Esses grandes negócios são de interesse direto de um número cada vez menor de pessoas, embora a maior parte da humanidade seja concernida por eles. Mas não pode se interessar por eles já que, embora sofra suas conseqüências, não tem condições de interferir.
Mas pouco a pouco essa realidade é desvendada pelas pessoas e pelos países mais pobres. Essa é uma contradição maior. Nós abandonamos as teorias de desenvolvimento, o terceiro-mundismo, que era a nossa bandeira dos anos 50 e 60. A noção política de Terceiro Mundo foi produzida em grande medida graças à existência da União Soviética; se ela não existisse, não haveria essa idéia política.
Todavia, graças à globalização está surgindo uma coisa muito mais forte: hoje é a história da maioria da humanidade que conduz à consciência da existência dessa tercermundização (que de alguma forma inclui também uma parte da população dos países ricos). Há uma formidável contradição em busca dos seus intérpretes, em busca de um discurso mais planetário e também nacional e local. Esse discurso é dificultado por esse pensamento único, mas ele pode se fazer.
Há algo de extraordinário nesse momento da história, que é essa produção limitada da racionalidade capitalista extrema e uma produção ilimitada do que seria a “irracionalidade”. A racionalidade é resultado de um controle férreo, mas esse controle joga fora do trabalho que admite controle um grande número de pessoas. Se o trabalho é o lugar da descoberta da situação de cada um, o trabalho no fim do século revela uma possibilidade de fugir ao controle.
A exclusão e as formas de trabalho relativas à exclusão, que chamo de “circuito inferior” – num livro que nunca conseguiu ter voga no Brasil, mas que é muito usado na África e na Ásia, O espaço dividido –, é exatamente uma discussão dessa contradição dentro do sistema capitalista, entre uma visão do trabalho por cima e uma visão do trabalho por baixo. Essa obra tem vinte anos, mas já indicava essa tendência.
O trabalho que é feito pelos pobres, pelos “marginalizados”, é portador da liberdade. Diferente do nosso trabalho, que é portador de uma necessidade de enquadramento de cima para baixo, do qual vem nosso sucesso. Esta produção limitada de racionalidade é a mesma produção de menor número de empregos e de atividades ligadas a essa racionalidade. Enquanto que eles chamam de “irracionalidade” outras formas de racionalidade, que criam outras formas de trabalho, essas sim portadoras do novo.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Fenajufe - Construindo a 1ª Conferência Nacional de Comunicação

Veja em http://br.video.yahoo.com/watch/5334915/14063631 o vídeo "Conferência Nacional de Comunicação, uma questão de classe", que esclarece o que está em jogo na I Confecom.

A mulher no chafariz

Elaine Tavares
Nem eram oito horas da manhã. Fazia frio na capital. Na Praça da Alfândega uma mulher magrinha, com o rosto vincado pelo sol de tanta rua, lavava roupa no chafariz. As poucas pessoas que passavam pelo local olhavam escandalizadas. Uma mulher de meia idade indignou-se: “mas que barbaridade”. E se foi atrás de um guarda municipal. Não resisti. “Mas o que ela está fazendo de mal? Não vê que é uma andarilha?” E a mulher, tão desprovida de generosidade, me olhando como se visse um ET: “aqui não é lugar de lavar roupa”. E seguiu na busca do guarda.
Mais na frente, no portal do mercado estava o guardião da ordem. A mulher falou, gesticulou e apontou a andarilha que seguia com seu ritual, absorta no prosaico ato de lavar umas poucas roupinhas que carrega numa pequena valise. Eu decidi estacar, esperando o desenrolar da cena. O guardo veio vindo, mansinho, carregado de autoridade. De novo me meti. “Não está fazendo mal a ninguém, nem peixinho tem ali”. E ele, firme: “Mas não pode”. Então pedi que olhasse bem pra ela. “Tu não acha que uma mulher dessas, com essa idade, não deveria estar sendo cuidada por alguém em vez de estar aí, sem eira nem beira? Ela poderia ser mãe da gente”. Uma garota de pouco mais de vinte anos passou e vomitou um: “que absurdo”. O guarda empertigou e olhou pra mim. “Que mundo é esse, né?”. E saiu de fininho, deixando em paz a mulher.
Saímos os dois, lado a lado, no silêncio. Um peso no coração. Como é possível que a gente como povo permita que ainda existam velhos abandonados pelas ruas, perdidos de sua alegria, na batalha diária por um resto de comida? Como é possível que com tanta riqueza no mundo, não haja um teto para que uma mulher que já viveu tanto possa descansar a cabeça? Um guri vestido de punk que acompanhou a cena toda sorriu pra mim e disparou: “Só a revolução!” E eu assenti. Pois é. Enquanto houver um sistema como esse, em que para que para que um viva, outro tenha de morrer, só a revolução.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Sem lenço e sem diploma

Por Elaine Tavares - jornalista

Paulo Freire, o grande educador brasileiro que é praticamente desconhecido no Brasil, sempre foi enfático com relação à alfabetização. “Não basta saber ler, é preciso saber ler o mundo”. Queria dizer com isso que aprender era coisa que ia muito além da compreensão sobre como se juntavam as letras. Era necessário estar capacitado também para uma leitura crítica do mundo. E como é que se consegue isso? Não basta unicamente estudar, ler, ter acesso a múltiplas fontes de informação, múltiplos pontos de vista. É preciso fundamentalmente saber de onde se é. E o que isso quer dizer? Que a pessoa precisa ter bem claro o lugar que ocupa no mundo, o que, no mundo capitalista, nos leva a uma compreensão da nossa posição de classe.

A votação sobre a não exigência do diploma para a profissão de jornalista, que aconteceu no STF brasileiro, diz bem desta questão. Ali estavam os senhores togados, representantes da classe dominante. São homens nomeados pelos presidentes de plantão para defender os interesses dos que mandam. Nada mais que isso. Vez ou outra acontece uma decisão com base na lei, mas sempre é coisa pequena, que não mexe nas estruturas, porque como bem diz o professor Nildo Ouriques, da UFSC, a democracia liberal é um regime sem lei. Neste modo de governo, as leis são mudadas ao bel prazer da minoria que tem o comando.

Vejamos os argumentos do ministro Gilmar Mendes para que a profissão prescinda de uma formação universitária: “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até a saúde e à vida dos consumidores. Logo, um jornalista não precisa de formação para fazer bom jornalismo.” Alguém entendeu?

Pois claro. Vamos supor que o que tivesse em questão fosse a necessidade de uma faculdade de Direito para que o juiz pudesse julgar a vida de outras pessoas. Poderíamos, qualquer um, argumentar o seguinte: “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir, dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até à saúde e à vida dos consumidores. Logo um juiz não precisa de formação para ser um bom juiz. Basta que ele tenha um bom senso de justiça e estude muito. ” Simples não?

Num país onde a maioria da população, desprovida do acesso à cultura e a educação, que se informa pela Globo, este simplório argumento representa uma vergonha. E nos causa profundo pesar ouvir isso de alguém que está acima de praticamente todos os habitantes da nação, o presidente do STF. É um argumento anti-intelectual, anti-cultural, anti-vida.

Minha mãe era uma grande cozinheira, mas sua comida divina nos era servida em casa, para a família. Não estava ela inserida no sistema de super-exploração capitalista, atuando numa empresa transnacional, na qual imperam os conceitos de competição, baixos salários e disputas intestinas. Não estava ela submetida a patrões, organogramas e metas de produtividade. Não estava também integrada num regime de divisão do trabalho aos moldes de garantir maiores lucros aos patrões. Logo, a decisão tomada nesta quarta-feira pelo STF foi uma decisão de classe. A defesa intransigente dos donos de jornais e empresários da comunicação que querem apenas gente minimamente capacitada para ler, não para ler o mundo. Porque o ser crítico, desejado por Paulo Freire, é um indivíduo perigoso demais. Ele reclama, ele reivindica, ele luta e ele ensina. A elite brasileira não quer isso para o seu povo. Há que mantê-lo sempre atado ao cabresto da ignorância, ao entretenimento, a mais-valia ideológica promovida pelos meios de comunicação de massa. Dá-lhe Big Brother, a Fazenda e outros quetais.

Voltando aos tempos do início do capitalismo

Quando a Idade Média terminou, foi-se chegando um jeito de organizar a vida que mais tarde viria a ser chamado de capitalismo. É o supra-sumo da liberdade, dizem os seus defensores. Nele, o trabalhador tem escolhas. Como era naqueles dias em que as fábricas passaram a dominar a vida. O povo empobrecido dos burgos tinha como escolher: ou se submetia a trabalhar vinte horas em condições insalubres e de quase escravidão, ou estava morto. Grande escolha.

Agora, no mundo capitalista da mídia selvagem e cortesã estamos no mesmo patamar. Os profissionais não precisam de formação específica, só vocação. Depois, uma vez dentro da empresa terão escolhas. Ou se submetem a salários mais baixos, condições precárias, opressão, assédio moral e tudo o que vem de lambuja no processo de super-exploração, ou não entram nesta profissão tão simples quanto fritar um bife.

Bueno, e não é por acaso que o futuro esteja praticamente na mão da empresas de mídia, visto que hoje em dia a produção de informação é o xodó do planeta. Logo, aquilo que é a coisa mais importante para um povo, o conhecimento das coisas da vida, ficará entregue a sanha do capital. Aos trabalhadores restará a opção democrática: aceitar ou cair fora. Não precisa ser vidente para prever o futuro: profissionais capacitados serão substituídos por quem aceitar submeter-se a salários menores. Será o “lindo” mundo habermasiano do consenso. A livre negociação entre empresários e trabalhadores. O tubarão dialogando com a sardinha.

Alternativas

Quem acompanha a vida cotidiana dos jornalistas nos locais de trabalho sabe que as coisas vão piorar muito. Até agora ainda havia um mínimo de regulação, uma pequena fatia de direitos com a qual o sindicato podia mover-se. Era possível fazer a luta através da Justiça ou da delegacia do trabalho. Havia um amparo mínimo. Agora não há mais. Os trabalhadores estão entregues a sua sorte, porque até que se crie uma nova lei com algum tipo de regulamentação a vida seguirá seu curso inexorável.

Mas, como dizem os cubanos – acostumados a bloqueios e vicissitudes – às vezes o horror pode servir para o passo adiante. Nos últimos tempos estávamos entregues a um trabalho sindical burocratizado, limitado às ações na Justiça. Havia uma apatia dos trabalhadores frente às lutas, uma espécie de “deixa que o sindicato resolva”. E os sindicatos, esvaziados de vida, iam arrastando-se, ganhando uma coisinha aqui e outra ali, amansando o monstro.

Agora estamos no chão. Os empresários ganharam esta batalha. Desregulamentados totalmente, estamos entregues aos desejos dos patrões. Sem medidas compensatórias via Justiça só cabe uma ação: a luta mesma, renhida e dura. Voltarmos aos tempos em que os trabalhadores se reuniam nos sindicatos para conspirar e organizar batalhas contra o capital. Então, é chegada a hora. De volta às ruas, de volta à organização, de volta a vida! Foi só uma batalha...Outras virão.

Por isso, agora, estamos num momento de viragem. Ou inventamos ou morremos, como dizia Simón Rodrigues. Para novas liras, novas canções. Nada de soluções atrasadas como a do Conselho Federal de Jornalismo que só engessa e institucionaliza a luta. Nada temos a perder, apenas nossos corpos nus, como dizia Marcos Faermann. Só os trabalhadores unidos e organizados podem mudar o seu destino. Por isso, vamos à luta. Refazer os mapas, reorientar rumos, mas organizados no sindicato.

Os patrões talvez não tenham se dado conta, mas ao nos tirarem tudo podem estar criando “cuervos”. Nada mais perigoso que um homem sem esperança!

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Luta pelo direito de morar





Nesta praia, em plena ditadura militar nos anos 1970, ocorreu um dos mais emblemáticos episódios de resistência das chamadas comunidades tradicionais. Saiba mais na revista Pobres & Nojentas 18, que circula daqui a duas semanas.

STF derruba exigência de diploma para jornalista

O Supremo Tribunal Federal derrubou nesta quarta-feira, 17, o diploma obrigatório para o exercício de jornalismo. Foram 8 votos contra 1. Os ministros seguiram o entendimento do relator do processo, Gilmar Mendes, de que a exigência do diploma se choca com a garantia dada pela Constituição à liberdade de expressão. A manutenção do diploma como pré-requisito para trabalhar como jornalista teve apenas o voto do ministro Marco Aurélio Mello. Leia em
http://revistapobresenojentas.wordpress.com/2008/09/25/por-que-regulamentar-a-profissao-de-jornalista o artigo escrito por Elaine Tavares sobre o assunto em setembro do ano passado.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Haiti: mais mortes e violências pela mão da Minustah

Elaine Tavares
Já se vão cinco anos de ocupação do Haiti por tropas das Nações Unidas, no melhor estilo estadunidense de “defender a democracia”. E, para piorar esta situação, é o exército brasileiro quem está à frente, no comando da operação. Nas propagandas oficiais do governo Lula, a idéia que aparece é a de que os soldados estão lá para ajudar o povo, mas para quem sofre diuturnamente a ação da repressão armada, a palavra ajudar não cai muito bem. Sindicalistas e militantes sociais haitianos são pródigos em denúncias sobre barbaridades que são cometidas contra o povo sob o manto da “ajuda humanitária”.
A mais recente ação contra as gentes haitianas foi na última semana quando as tropas da Minustah dispararam contra uma manifestação de estudantes e trabalhadores em luta pelo cumprimento de uma lei. Segundo informes das entidades sociais do Haiti, mais de 40 pessoas foram presas, uma criança morreu sufocada pelo gás lacrimogêneo e um jovem teve a cabeça dilacerada por um balaço. Os protestos aconteceram dentro da cidade universitária e indignaram toda a população.
No dia seguinte os militantes sociais insistiram pela soltura dos prisioneiros, já que todas as manifestações estavam sendo pacíficas e legítimas. Apenas cinco pessoas foram liberadas. Os estudantes que insistiam em protestar foram encerrados no próprio bairro onde fica a universidade e ninguém pode sair. Os secundaristas decidiram então sair em passeata para apoiar a luta dos universitários e trabalhadores e as tropas protagonizaram novas ações de violência. Chegaram a aspergir gás lacrimogêneo na região do Hospital da Universidade Estadual, onde até os médicos fugiram, deixando os doentes sem qualquer proteção. Um senhor idoso morreu sufocado pelo gás. Mais gente foi presa.
No outro dia, mais dois espaços universitários foram invadidos pelas tropas da Minustah, a Faculdade de Etnologia e a Faculdade de Ciências Humanas (FASCH). Mais confusão e prisões. O estudante Emmanuel Jean-François recebeu uma bala na cabeça e acabou morrendo. Também corre a boca pequena que a Minustah tem uma lista de professores marxistas para matar, acusados de incentivar idéias de rebelião nos estudantes e de acompanhá-los nas manifestações. A Minustah também é acusada de agir com violência durante a greve que aconteceu em maio na Faculdade de Medicina e Farmácia, o que mostra que as forças da ONU estão sendo usadas como polícia nos casos mais prosaicos da política haitiana.
Os motivos das lutas
Os recentes conflitos no Haiti dizem respeito ao fato de que o presidente ainda não sancionou a lei aprovada pela Câmara dos Deputados e o Senado que reajusta o salário mínimo de 70 para 200 gourdas (42 gourdas = 1 dólar). Segundo informações que chegam dos movimentos sociais do Haiti, a Associação dos Industriais Haitianos (ADIH), no dia 13 de maio, promoveu uma conferência colocando claramente que pretende impedir a publicação da lei no jornal oficial do Estado e insiste para que os parlamentares voltem atrás no voto. E é esta queda de braço entre os trabalhadores e empresários que está mobilizando as gentes. Os trabalhadores querem que o governo cumpra com a obrigação legal de publicar a lei já aprovada. Mas, em vez de fazer o que tem de ser feito, o governo de Preval prefere usar as tropas da ONU para matar, prender e reprimir a luta popular.
O pano de fundo

O Haiti tem uma longa tradição de luta popular. Foi o primeiro país de Abya Yala a garantir, na luta, a sua independência. O único no mundo onde os escravos foram os protagonistas, e não os criollos, como no restante dos países latino-americanos. Foi no Haiti que Francisco de Miranda e Simon Bolívar buscaram abrigo e conhecimento, que os levou à luta pela libertação da Pátria Grande. Mas, a ousadia deste pequeno país em fazer valer sua libertação teve um preço alto: 150 milhões de francos/ouro, a primeira dívida externa – com a França - que saqueou o país e impediu a construção de uma alternativa econômica. Desde aqueles dias de independência colonial, mas não financeira, o Haiti se manteve na linha da pobreza, com uma classe dominante bastante débil.
Por conta deste permanente estado de tensão, o Haiti ficou vulnerável a lutas internas também consideráveis entre negros e mestiços. Viveu ainda décadas de ditadura do pai e do filho Duvallier, governos ferozes, predadores, mortais. E, quando conseguiu sair da longa estrada da opressão elegendo um presidente, Bertrand Aristide, se deparou com a corrupção, o roubo de suas riquezas e a companhia nefasta do império, os Estados Unidos.
Desde os anos 80, no governo Regan, foi organizado um plano para os países do Caribe, entre eles o Haiti. Criaram-se fábricas, parques industriais e zonas francas. Tudo isso com a promessa do desenvolvimento. Mas, como sempre, o plano só é bom para os EUA. Assim, o Haiti começou de fato a produzir coisas, mas nada do que faziam era ou é vendido no país. O povo não tem dinheiro para comprar. No acordo firmado, a grande vantagem que o governo haitiano oferecia às empresas era a mão de obra barata de sua gente. A jogada é manter o salário miserável para que as empresas fiquem no país. Assim, ganhando 1,65 dólar ao dia, um haitiano ainda tem sob sua cabeça a ameaça constante: se brigar contra isso, as empresas vão embora. Então, entre nada e o dólar miserável, ele tem de preferir o dólar.
A política de zona franca no Caribe torna a região um espaço surreal. Hoje já são 56 zonas livres de impostos. Coisa para turista. A burguesia existente é a que mexe com esse setor. A lógica da ALCA é a que manda. Aos trabalhadores resta a fome e a opressão. Os trabalhadores das zonas francas passam o dia todo sem comer, porque não têm condições de ir para casa e muito menos comida para levar. Quando muito, fazem uma refeição por dia, e rala. A repressão aos sindicatos é coisa normal. Estar vinculado a uma organização de classe é quase como pedir demissão. E agora, nem o aumento salarial aprovado pelos legisladores está sendo aplicado.
Não bastasse isso, o povo tem de aturar a ocupação do país por tropas estrangeiras que, como se vê, fazem o papel de polícia, defendendo os interesses dos empresários e do governo. E para piorar - para nós - estas tropas estão sob o comando do Brasil.
Para os trabalhadores e militantes sociais haitianos, se o Brasil quisesse mesmo ajudar, mandaria médicos, engenheiros, professores, gente para erguer o país e não se prestaria a ser capacho do império, fazendo o serviço sujo. E o que pedem ao povo brasileiro é que seja solidário e pressione o governo e Lula para que retire as tropas do Haiti. Saindo o Brasil a Minustah perde muito de sua legitimidade.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Desmatamento na Amazônia


Míriam Santini de Abreu
Estou lendo livros sobre a devastação da Amazônia para uma reportagem a circular na Pobres & Nojentas. A caminho de Manaus atravessei o estado do Mato Grosso, que é campeão em matéria de desmatamento. O avanço do gado na Amazônia, o plantio de soja e a derrubada de árvores para as siderúrgicas de ferro-gusa são os principais motivos. As fotos acima foram tiradas no estado.

Domingo, 14 de Junho de 2009

As chaves da calçada


Míriam Santini de Abreu
Florianópolis é a terra dos causos raros. Dia desses eu caminhava com menos pressa do que o habitual e parei surpresa diante desta calçada na rua Marechal Guilherme, centro da Capital. Um trecho quadrado está repleto de chaves! Eu, que tantas vezes passei ali, nunca havia reparado no fato. Busquei informações e me disseram que naquele local, tempos atrás, havia um chaveiro. Eu penso que, na verdade, em vez da calçada da fama dos ricos & famosos, temos a calçada da fama dos que abriram a porta do paraíso e decidiram nos legar a chave para não voltar...

O jornalismo e a comunicação em Cuba

Leia no blog da Pobres Teórica, www.revistapobresenojentas.wordpress.com, o artigo "O jornalismo e a comunicação em Cuba", da jornalista Elaine Tavares, que entrevista o presidente da União de Periodistas de Cuba, Tubal Paez. Ele esteve em Florianópolis para a XVII Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, promovida pela Associação Cultural José Martí de Santa Catarina.

Sábado, 13 de Junho de 2009

Beleza ilustrada


A P&N fica cada vez mais bonita com o trabalho gráfico de Rosangela Bion de Assis e Sandra Werle e com as ilustrações de Eduardo Schmitz. Eduardo é jornalista e em Taió edita o Observatório Local, http://observatoriolocal.zip.net
As ilustrações acima foram publicadas em três diferentes edições da revista para ilustrar textos.

Coleção Pingos de Poesia – 9 - Espelhos Esparsos*

Quem se olha? Quem te olha? Alguém nos olha?

Um olho vaga pelo centro da Ilha

Se incrusta nas paredes

Reaviva histórias e congela o paralelepípedo,

Cristaliza-me-mória na matéria-pedra, santa de catacumbas

Reflete meu eu pensando, olhos oblíquos

Através d’esse olho miro

Me dimensiono, procuro meu ângulo

Me estico, me entorto, me silencio, me espreito

Alguém nos olha?

Me–te-se-nos espelhos espairados da urbe arquipélaga

Miúdo Centro de um Narciso Apaixonado.

*Por Raul Fitipaldi - Poema inspirado em instalação pública de Vanessa Bortucan - http://portfolhobortucan.blogspot.com/

12 de Junho – Dia Mundial contra o Trabalho Infantil

Leia, na Pobres Teórica, o artigo de Li Travassos sobre o assunto.

Acesse http://revistapobresenojentas.wordpress.com/

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Jornalista cubano fala sobre a profissão em seu país no canal do SJSC no You Tube

O jornalista Tubal Paéz, presidente da União de Jornalistas de Cuba, fala sobre a comunicação em Cuba e os desafios do jornalismo num outro sistema de organização da vida. Ele afirma, em entrevista realizada na Assembléia Legislativa, que não existe democracia na comunicação sem democracia econômica. O canal do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina está em http://www.youtube.com/user/SindiJornalistasSC

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Geremias

Sarony, 1895


O rumor das castanholas acorda o louco Geremias, que dorme nos degraus de pedra da mansão dos Wassman.
Só dando no louco Geremias com o gato morto, até o gato miar.
O gato morto não mia nunca, e o pobre-diabo Geremias chuta os vasos de terracota que ladeiam os degraus de pedra; observa que o patriarca dos Wassman o espia de uma das vidraças com medo de que ele arrombe a porta maciça de carvalho da mansão.
Wilhelm Worth Wassman vê o que é o Geremias, logo após torna a deitar-se – obeso que é – mas acordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no teto da mansão. Sorve do samovar de prata um pouco de chá.
O céu cai sobre os dois – Wilhelm e Geremias –, o céu, impassível, sem as rugas do mendigo Geremias, sem as manias do aristocrata Wilhelm, um dia claro assim, ensolarado, já estava lá sobre os convivas das bodas de Canaã, o céu lá estava e viu, com seus olhos claros, o suicídio de Lucrécia, o sacrifício de uma virgem à beira do rio.
Percorreu várias vidraças este céu antiquíssimo, sem acertar com a verdadeira, afinal estacou na enorme vidraça da vasta janela da mansão dos Wasmann, e, se atentarmos bem, nos degraus de pedra, Geremias acaba de morrer ao lado do gato morto.

Fernando José Karl

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

A biotecnologia cubana

Por Elaine Tavares - jornalista

Um elegante terno de linho, um riso largo e muito bom humor. “Sou neto do Albertinho Limonta, da novela O Direito de Nascer”, diz entre risos. Pois bem poderia ser. Manoel Limonta é um “santiaguero” de Cuba, nascido na bela Santiago, ao sul da ilha insurgente. De sua baía exuberante pode-se divisar a mítica Sierra Maestra, palco das lutas de libertação, e é conhecida mundialmente por sua rebeldia, já que foi berço das batalhas contra a colonização espanhola e, foi ali, na sua serra, que se definiu revolução libertadora. Também foi ali, em Santiago, que ficou preso Fidel antes de iniciar a caminhada que terminou na vitória em 1958.
Foi neste cenário de calorosas lutas que Manoel se fez menino e, nas brincadeiras de infância, já se via médico. Era tudo o que queria ser. Cuidar das gentes tal qual um tio que lhe servia de exemplo. Jovem, não participou diretamente da luta armada, mas seus familiares incursionavam por dentro da revolução que iria trazer nova vida à ilha. E foi graças ao fim da ditadura de Batista que ele conseguiu entrar para a faculdade de medicina e fazer real o seu sonho.

Quando chegou a hora de seguir os estudos, o novo governo revolucionário já estava consolidado. Era o ano de 1962. Manoel Limonta se foi para a capital, Havana. “Em muito pouco tempo o governo promoveu uma revolução também na educação. Já era uma meta a educação gratuita para todos. Por isso, eu tive bolsa de estudo. Em Havana tive alojamento, comida, livros e até dinheiro para os pequenos gastos. Da escola de Medicina saí em 1968 formado como médico social”. Dalí, Manoel foi para o campo, clinicar, pois era no interior que a necessidade se fazia maior. Mas, seu desejo era pesquisar, fazer a diferença para o seu povo. Gostava de hematologia e decidiu fazer especialização. Neste meio tempo decidiu participar de uma missão na África, seguindo a tradição solidária de Cuba, e lá se foi para a Tanzânia, onde viveu experiências marcantes do ponto de vista humano. Por isso, sempre assoma uma lágrima quando fala deste momento da vida.

Chamado por Fidel
Na volta para Cuba, seguiu atuando na clínica, trabalhando em hospital, mas nunca se descuidou dos estudos. Andava por toda a ilha falando sobre o interferon, um medicamento que estava sendo usado para combater o câncer e que tinha a vantagem de ser natural, produzido a partir dos glóbulos brancos. “Este medicamento tem a vantagem de não produzir os efeitos colaterais comuns dos citostáticos – químicos - como a queda de cabelos, enjôos, etc... e também funciona contra os vírus em geral”. Pois um belo dia do ano de 1981 Manoel recebeu um chamado especial. O presidente Fidel Castro queria falar com ele.
- Quero que Cuba produza o interferon. Acha possível?
-Sim, podemos.

“Fidel havia falado com o diretor de um hospital em Houston, no Texas, e este havia falado das maravilhas do interferon. Interessado em produzir o medicamento Fidel perguntou se podia mandar dois médicos para o hospital, aprender com ele. Ele disse que sim. Então o próprio Fidel selecionou as pessoas. Fomos eu e a pesquisadora Vitória Ramirez”. Segundo Limonta, aquele foi um período importante de aprendizado. Depois, descobriram que na Finlândia havia um pesquisador que já lograra produzir o medicamento. Fidel decidiu enviar mais seis médicos para o norte da Europa. “Todo o processo era dirigido pelo próprio Fidel. Ele estava obcecado por garantir a saúde de todos os cubanos, e aquele medicamento era de uma importância vital”.

Por dez dias, uma equipe de seis médicos, incluindo Limonta, Ramirez e mais quatro do Centro Nacional de Investigações Científicas de Cuba, ficou na Finlândia aprendendo o método de produção do interferon. Na volta para Cuba, Fidel já havia arranjado uma casa que serviria de laboratório para a empreitada. Outros pesquisadores foram chamados para somarem-se nesta aventura e, em 48 dias, num trabalho ininterrupto, sem descanso, sem sábado ou domingo, a equipe conseguiu seu intento. “Fidel ia todos os dias ao laboratório, acompanhava de perto. Ele dizia que um método de trabalho precisa ser avaliado a cada final de dia, para que não haja qualquer furo. E foi assim, que no dia 28 de maio de 1981, nós entregamos ao comandante o produto envasado e com as provas que definiam a sua qualidade”.

Inventando a ciência cubana
Pois como se só esperasse que aquela odisséia tivesse sua vitória, no mês seguinte a ilha foi assolada com uma epidemia de dengue hemorrágica. O interferon foi usado, sempre acompanhado de um protocolo de estudo, comprovando que o medicamento, aplicado nas primeiras fases da doença, tinha uma boa resposta. Depois, mais tarde, usaram o interferon para combater uma espécie de conjuntivite hemorrágica, também com sucesso, assim como no tratamento da hepatite B e no câncer de mama.

Por conta disso Fidel entendeu que era preciso construir um novo centro de pesquisas para incrementar a produção do interferon e, aproveitando o método de trabalho que resultou na produção daquele medicamento, desenvolver também a biologia molecular e a engenharia genética. “Este é o que chamamos de modelo de ciclo fechado porque os mesmos investigadores que desenharam o projeto, participaram da produção e da aplicação clínica”. Limonta conta que este método acabou servindo de modelo para o trabalho em biotecnologia que não existia ainda em Cuba. E o desejo de Fidel de garantir a saúde para todos gerou em poucos meses um novo centro com mais de quatro mil metros quadrados, com equipamentos novos e mais pesquisadores. Foi o nascimento da engenharia genética que, por sua vez, produziu o interferon recombinante, que não necessita mais dos glóbulos brancos. Ele se faz a partir da introdução num hospedeiro que cria um novo gen mais limpo e mais produtivo. “Foi um salto impressionante na pesquisa”.

Todo o processo do nascimento da ciência própria em Cuba teve a participação de Manoel Limonta. Ele foi o responsável pelo primeiro grupo, depois respondeu pelo Centro e coordenou o trabalho com o interferon, biotecnologia, imunologia moderna e microbiologia avançada. Em 1986 foi inaugurado o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia, com 74 mil metros quadrados de construção em 15 hectares de terra, que agrupava todas as áreas da biotecnologia. Limonta foi o diretor geral. “Foram cinco anos de revolução na ciência cubana. Introduzimos uma tecnologia que não existia e realizamos uma mudança radical”.

A terceira etapa da estruturação da ciência cubana se deu de 1986 a 1991. Nestes outros cinco anos os profissionais desenvolveram novos produtos recombinantes que foram decisivos para consolidar a posição de Cuba na ciência mundial. A partir daí a ilha não só passou a ser autossuficiente na área de medicamentos, mas, fundamentalmente, começou a ser uma exportadora de remédios, ampliando assim as divisas.

Enfrentando o bloqueio
Toda essa aventura da ciência cubana não aconteceu por mágica. Foram 10 anos de estafante trabalho num período de grandes turbulências em nível mundial. Enquanto os pesquisadores trabalhavam como loucos nos laboratórios, o mundo lá fora se transformava, inclusive com a queda do bloco soviético que, por muito tempo, fora o principal parceiro de Cuba. “Nós estávamos mergulhados no trabalho, baseados num princípio de Fidel que dizia que não podíamos desperdiçar horas de esforço quando a saúde do povo cubano dependia do trabalho que estávamos fazendo. Ali, o único que nos interessava era avançar nas pesquisas e na produção de remédios para abastecer nossa gente”. O resultado é que, hoje, Cuba tem dezenas de produtos à disposição do mundo todo, centenas de patentes e contratos com mais de 50 países.

A educação e a ciência sempre foram prioridade em Cuba. Cuidar da mente e do corpo do povo era e é o grande compromisso da revolução. Por isso, já no final dos anos 80 criaram-se novas instituições como o Centro de Imuno-Ensaio, preparado para a elaboração de diagnósticos, o Instituto Finley, para a produção da vacina contra a meningite meningocócica tipo B, outros centros de Engenharia Genética no interior do país, o Centro Nacional de Bio-preparados, o Centro de Imunologia Molecular, que produz vacinas terapêuticas contra o câncer. “Isso tudo fez com que tivéssemos um desenvolvimento incrível. O método e uma agrupação de profissionais que não compete, que coopera, que se fortalece e que oferece medicamentos gratuitos a toda população”.

Essa obsessão pela ciência e pela saúde popular seguiu firme pela década de 90 e hoje a biotecnologia cubana é um dos elementos mais importante do Produto Interno Bruto, ocupando o terceiro lugar. Para quem está envolvido até a medula no processo como Manoel Limonta o que assoma é a satisfação. “Naqueles dias em que iniciamos a produção do interferon cheguamos a passar 18 dias inteiros no laboratório, sem ir pra casa. Mas aquilo era uma sensação maravilhosa. Tínhamos a atenção e a exigência de Fidel. Sabíamos que aquilo era importante para a gente cubana. Fidel é uma pessoa que irradia patriotismo, segurança no futuro, altruísmo. Ele fazia a gente se sentir especial. Foi um tempo muito lindo”.

A ilha sem Fidel
Agora, nesta primeira década do século XXI, a ilha de Cuba se deparou com um fato de difícil assimilação: ficar sem Fidel. O velho comandante está doente e afastou-se da direção do país. Quem compartilhou estes anos todos do sonho revolucionário que tornou Cuba uma referência no mundo sabe que Fidel faz e fará muita falta. “Ele é um ser humano incomparável. Tem um altíssimo nível cultural, político, ético. Mas ele também soube preparar muito bem o país para seguir o caminho sem ele. Isso faz um líder”. Limonta acredita que Cuba está capacitada para enfrentar novos desafios, novas circunstâncias, que vai se desenvolver sem perder o princípio do social, as conquistas e a pureza moral das coisas que a revolução alcançou.

No campo da ciência, estes pesquisadores que entregaram sua vida para a melhoria da saúde em Cuba, não se arrependem um segundo de todos os sacrifícios que tiveram de fazer. “Trabalhamos como animais, mas valeu a pena. O bloqueio imposto pelos Estados Unidos nos colocou desafios grandiosos e nós soubemos ultrapassar tudo isso. O inimigo nos tornou mais fortes e determinados. Por isso, não há como parar Cuba. Porque somos um povo criativo, capaz e nunca deixamos de enfrentar os desafios. Isso não vai mudar”.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Ligue agora e diga não à MP 458!

Na quarta-feira, dia 02/06, o senado brasileiro aprovou a MP 458. Esta medida presenteia todos aqueles que fizeram grilagem na Amazônia com a regularização de terras ocupadas ilegalmente.
Se o presidente assinar a MP 458, 67 milhões de hectares de terras públicas da Amazônia serão privatizados. Um patrimônio estimado em 70 bilhões de reais irá parar nas mãos dos grileiros.
Amanhã, dia 10/06, é o último dia para reverberar nossa voz. O Gabinete de Lula está recebendo milhares de ligações pedindo para que a MP 458 não seja aprovada. Faça sua parte, ligue e espalhe os números e o e-mail do presidente Lula para seus amigos. Peça para que eles digam NÃO A MP 458.
Telefone do Gabinete do Lula:
(61) 3411.1200 ou (61) 3411.1201
Ou envie um e-mail através do link:
https://sistema.planalto.gov.br/falepr2/index.php
Se quiser saber mais sobre o assunto, recomendamos os links:
http://www.greenpeace.org/brasil/amazonia/noticias/ruralistas-privatizam-a-amaz-nhttp://www.avaaz.org/po/nao_privatize_a_amazonia/

Curral do Boi Garantido em Manaus

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Festa no dia 6 de junho

Festival de Parintins: cultura popular

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Grupo Cantos Tribais se apresenta em Manaus

Míriam Santini de Abreu

A gente nunca sabe em que curral vai parar. Eu, no sábado, dia 6, fui parar no Curral do Boi Garantido, em Manaus, no Amazonas. Conhecia apenas de televisão o show-disputa entre o Boi Caprichoso e o Boi Garantido no festival folclórico de Parintins, que acontece no final de junho. Parintins fica a 420 km de Manaus por rio, e lá só dá para chegar de avião ou de barco. Neste caso é uma viagem que pode durar de 20 a 30 horas. Perguntei a um morador de Manaus:
- E de carro?
- Não tem estrada, não!
Imagino o que seja a beleza do festival pelo que pude ver em Manaus. Fiquei tão encantada que quase me esqueci de fotografar.
Há muita informação sobre o festival no Google.

Beleza do Garantido







O Grupo Cantos Tribais em apresentação num bar localizado perto do anfiteatro na praia da Ponta Negra, às margens do rio Negro, em Manaus, no Amazonas. Na última foto, o Curral do Boi Garantido em Manaus, em festa promovida pelo Movimento Amigos do Garantido.

Presidente da União dos Jornalistas de Cuba é o convidado de mais um "Diálogos com o Conhecimento"

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e a Associação José Martí promovem no dia 10 de junho, quarta-feira, às 16 horas, na Sala de Imprensa da Assembléia Legislativa, a segunda edição de “Diálogos com o Conhecimento”. O jornalista Tubal Paéz, presidente da União de Jornalistas de Cuba, irá falar sobre a comunicação em Cuba e os desafios do jornalismo num outro sistema de organização da vida. Ele estará em Florianópolis para a XVII Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba.
“Diálogos com o Conhecimento” é um projeto que tem a seguinte dinâmica: realização de ações para aproximar o Sindicato dos Jornalistas dos filiados com a discussão de temáticas relevantes para ampliar o conhecimento para a vida e para o trabalho.
A proposta do “Diálogos” é organizar uma conversa em pequeno grupo – prioritariamente formado de jornalistas – com pessoas especializadas em determinadas áreas do conhecimento, seja ele formal ou popular. O objetivo é que a pessoa possa apresentar um panorama sobre o assunto em foco e ser sabatinada pelos jornalistas, promovendo assim uma melhor compreensão acerca dos temas complexos da conjuntura e propiciando a melhoria da qualidade dos textos.
Com este projeto pretendemos fazer com que os jornalistas possam ficar sempre em dia com os temas mais quentes da atualidade, priorizando um olhar independente e alternativo sobre os fatos.
Não perca! Marque na sua agenda e participe. Vamos aproveitar que é um dia de vigília dos jornalistas e ampliar nosso conhecimento sobre a ilha de Cuba.

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Ato contra a privatização é nesta terça, 9

Nesta terça-feira, dia 09 de junho, acontece um ato em todos os estados brasileiros em defesa do serviço público e contra o projeto de fundação estatal de direito privado – PLP92. Em Florianópolis, o ato acontece a partir das 9 horas, na assembléia legislativa do estado - Alesc.
O movimento unificado contra a privatização - Mucap, que congrega as entidades sindicais, estudantis e populares, apela aos companheiros para se organizarem nas próprias bases, como acontecerá em todo o brasil.
Vai ser entregue um documento aos parlamentares, exigindo que se manifestem e votem contra o projeto, que representa um desastre para o serviço público e, de imediato, para os hospitais universitários de todo o país.
Privatizar os serviços públicos é um crime!
Levante-se e lute pelo que é seu.
Mucap

A cara do latifúndio no Mato Grosso




Governo legaliza grilagem na Amazônia

Fonte: Greenpeace Brasil
Após uma longa e acirrada disputa de mais de cinco horas, a bancada ruralista do Senado conseguiu impor ao país, por uma apertada maioria de 23 votos a favor a 21 contra e uma abstenção, a Medida Provisória 458, a MP da Grilagem. A MP apresentada pela presidência da República com a justificativa de legalizar terras ocupadas na Amazônia Legal havia sido aprovada na Câmara dos Deputados com a inclusão de emendas que beneficiam grileiros de terras públicas e empresas. A medida possibilita que 80% das terras públicas apropriadas irregularmente, o equivalente a 67 milhões de hectares, sejam privatizadas.
Agora, a MP 458 segue para aprovação do presidente Lula. “O congresso privatizou escandalosamente a Amazônia, o que vai aumentar o desmatamento e acelerar as mudanças climáticas. Os ruralistas insultaram a memória de tantos brasileiros que, como Chico Mendes, morreram na defesa do maior patrimônio ambiental do país”, disse Paulo Adario, diretor da campanha da Amazônia do Greenpeace. “Agora a responsabilidade para evitar esse desastre está nas mãos daquele que o criou, o presidente Lula, que precisa seguir o conselho de Marina e vetar os parágrafos da medida que ameaçam o meio ambiente.”
Em um discurso emocionante que, certamente, entrará para a história, a senadora Marina Silva (PT/AC) falou da violência causada pela grilagem na Amazônia. Entre 1999 e 2008 5.380 conflitos envolveram 2,7 milhões de pessoas, provocando 253 mortes por assassinado. “Os defensores dessa medida dizem que ela não vai legalizar a grilagem, mas não é o que pensam os especialistas. A MP 458 vai jogar por terra 15 anos de trabalho de promotores sérios contra a grilagem. Aqueles que grilaram vão ganhar o título de cidadão de bem”, disse Marina.Juntamente com o senador Aloizio Mercadante (PT/SP), Marina até tentou uma negociação. A proposta foi manter o texto dois aspectos do texto proposto inicialmente pelo governo: prazo de 10 anos para que as terras regularizadas sejam vendidas (na Câmara dos Deputados, esse período foi reduzido para três anos) e possibilidade de empresas sejam donas de terras amazônicas. Ironicamente, esse último item possibilita a internacionalização da Amazônia por empresas transnacionais, exatamente o que o falso argumento usado pelos ruralistas para tentar desqualificar o trabalho do Greenpeace.
Outro aspecto negativo é que os imóveis de até 400 hectares não precisam passar por vistorias para serem regularizados. Pela MP 458, o governo aceitará uma declaração do próprio beneficiado descrevendo a situação em que suas terras se encontra para regularizar a aterra, o que abre brecha para fraudes.
Agora, cabe ao presidente Lula não deixar que a bancada ruralista, liderada pela senadora Kátia Abreu (DEM/TO) empurre goela abaixo da sociedade brasileira a regularização da grilagem. Leia mais em http://www.greenpeace.org/brasil/amazonia/noticias/as-ongs-reagem
Nós só temos até esta quarta-feira para pedir para o Presidente Lula vetar estes pontos da MP. Proteste!
Gabinete do Presidente: (61) 3411.1200 (61) 3411.1201

Videiras da pecuária



O Rio Paraná e, na terceira foto, em destaque, a ponte rodoferroviária que liga São Paulo ao Mato Grosso do Sul. O município é Rubinéia, localizada na bacia de alimentação da Usina Hidroelétrica de Ilha Solteira. As imagens parecem uma coleção de gigantescas folhas de parreira. Folhas que escondem a nudez da terra sem floresta, onde hoje domina a pecuária.